Una poesia pra Allá de muito exquisita

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Una poesia pra Allá de muito exquisita


1 de maio de 2020
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Una poesia pra Allá de muito exquisita
Publicado originalmente em O Duque.

Só para ambientar a coluna, peço que leiam este soneto:

burguesa patusca light ciudade morena
el fuego de la palavra vá a incendiar tua frieza
ninguém consigue comprar a sabedoria alegria belleza
vas a aprender agora com cuanto esperma se hace um buen poema

esnobe perua arrogante ciudade morena
tu inteligência burra — oficial — acadêmica — pedante
y tu hipocondríaca hipocrisia brochante
son como um porre de whiski com cibalena

postiza sonriza Barbie bo-ro-co-chô ciudade morena
por que mezquina tanto tanta micharia?
macumba pra turista — arte fotogênica
ya lo ensinaram Oswald — depois Manoel — mas você no aprendeu — son como desinteria

falsa virgem loca ciudade morena
vas a aprender ahora com quanto esperma se faz um bom poema

Douglas Diegues (In: Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas, Travessa dos Editores, p. 8)
Pronto! Fica apresentada para vocês a poesia de Douglas Diegues; um carioca da gema que foi criado e mora na fronteira do Brasil com o Paraguai; é o principal expoente do Portunhol Selvagem. Portunhol Selvagem!? Deixo o próprio Douglas, explicar:

U portunhol salbaje es la língua falada en la frontera du Brasil com u Paraguai por la gente simples que increiblemente sobrevive de teimosia, brisa, amor al imposible, mandioca, vento y carne de vaca. Es la lengua de las putas que de noite vendem seus sexos na linha da fronteira. Brota como flor de la bosta de las vakas. Es una lengua bizarra, transfronteriza, rupestre, feia, bella, diferente, que impacta…”. De acordo com seu artigo para a Zunái.

Ou ainda:

“[…] um fenômeno estético nuebo nel atual panorama. Uma forma nueba de dizer coisas viehas y nuebas de miles de maneras próprias diferentes. Es uma lengua que solo se pode entender usando el korazón. Brota del fondo del fondo de cada um de maneira originale. Es uma lengua bizarra, feia, bela, selvagem, provinciana-kosmopolita, rupestre, post-histórika, sem data de vencimento. Non se trata de mera brincadeira que deu certo. Es uma aventura literária. Um dialeto feliz que non necessita mais ser feliz. Um karnabal cumbiantero de palabras conocidas y desconocidas. Uma liberdade de linguagem hermoza que nunca caberá inteira em los espelhos y molduras de ningum pombero-system literário oficial […].” Segundo a entrevista que Douglas deu a Evandro Rodrigues no site “LOCO POR TI”.

Suas obras, listadas no seu blog “portunholsevalvagem.blogspot.com”, até agora são: “Dá gusto andar desnudo por estas selvas” (Travessa dos Editores, Curitiba, 2003); “Uma flor” (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2005); “Rocio” (Jakembo Editores, Asuncion, 2007); “El astronauta paraguayo” (Yiyi Jambo, Asuncion, 2007); “La camaleoa” (Yiyi Jambo, Asuncion, 2008); “DD erotikito salbaje” (Felicita Cartonera, Asuncion, 2009); “Sonetokuera en alemán, portuñol salvaje y guarani” (Mburukujarami Kartonera, Luquelandia, Paraguay, 2009); “Triplefrontera Dreams” (Katarina Kartonera, Florianópolis, 2010); “La felicidad versus el dia de San Nunka” (poemas inéditos); “Garbacho el rey de los perros paraguayos” (relatos inéditos); “El amor non tiene dueño” (sonetos salvajes inéditos); “Bichos paraguayos” (mitologia callejera robada nel Mercado Kuatro); “Amantes perfectos” (relatos salvajes inéditos); “El domador de yakarés” (biografia klandé inventada del personaje mais famoso de la literatura triple frontera); “La última cumbia de la calle última” (protonoubelle em bersos); “Maká Fútbol Club” (relatos fuboleros).

É bastante coisa! São bastantes poesias!

Num primeiro contato, aprende-se que o Portunhol Selvagem é uma língua em movimento errático, sem governança, e tentar regrá-lo é acabar com a sua essência livre. Basicamente, é uma língua ou dialeto ou qualquer outra definição formada(o) por palavras em português, guarani e espanhol, porém com pitadas de espanglês e inglês; sem contar os neologismos e, como direi?!… sei lá… transneologismos (se é que existe esta palavra, que, para mim, significa um neologismo que vale para várias línguas e não só o para o Portunhol Selvagem). Um transneologismo, por exemplo, é: non-lugar, que significa, obviamente, o que o autor quiser, dependendo do contexto. Volando, volando, acá estou jo, mientras a condición de ignorante, aprendendo e em la noche me la passo divirtiendome com el Portunhol Selvagem.

Mas, ao contrário do que vocês pensam, o assunto não é o Portunhol. Aliás, tenho certeza que a estranheza da novilíngua, aliada à curiosidade da primeira leitura de um texto em Portunhol Selvagem, esconde o melhor de Douglas Diegues: sua poesia! É na sua poesia que o leitor tem que colocar a sua atenção e foco; independentemente da palavra usada, seus temas e sua agudez são de uma elegância poética sui generis e o ritmo de seus versos flui com uma naturalidade tão grande que é grande o nosso sentimento de que não houve esforço no fazer.

Se Douglas escrevesse somente em português, tenho cá comigo, sua poesia também seria fantástica. Mas Douglas é esperto… Tal qual um pintor que, diante da tela, serve-se das cores disponíveis naquele instante e faz sua obra a partir dessa paleta derivada das misturas na aquarela, Douglas tem ao seu dispor, quando diante da página em branco, além do português, outras tantas línguas que são transformadas em uma miríade de palavras, elevando as possibilidades do poema em escala logarítmica ou logaRÍTMICA. É isso, Douglas é um poeta para quem uma única língua é pouco para a sua arte.

Outro aspecto muito bacana é o respeito que o poeta tem com o Cânone da poesia; apesar de ser um transgressor, seja lá qual for o significado disso, é muito interessante a maneira como ele se refere a autores consagrados, particularmente Manoel de Barros; basta ler o soneto que abre esta coluna. Nesse aspecto, confirma-se a sua sagacidade quando bebe de uma fonte segura, porém adaptadada ao seu estilo e à vanguarda da poesia (se é que existe vanguarda na poesia nestes tempos tão esquisitos, com “s”).

Deixo vocês com o poema “LA XE SY”, o primeiro que li de Douglas e que, de imediato, me arrebatou.

Los abogados, los médicos, los periodistas, todos quierem fornicar com minha mami.
Nadie tiene las tetas mais bellas que las de la xe sy.
Los gerentes de banco non resistem.
Los músicos, los guarda-noturnos, los karniceros, todos querem fornicar com ella.
Nadie tiene los ojos mais bellos que los de la xe sy.
Tengo três años.
Me enkanta jugar com la lluvia.
Y non tengo padre.
Los idiotas, los seccionaleros, los farmacêuticos, todos suenham enfiar el pau en la tatu-ro’o de mi mamá.
Todos los bugres de la fronteira desejam la xe sy como legítima esposa ni que sea apenas por uma noche tíbia junto al lago azul de Ypacaraí.
La xe sy es la fêmea mais bella del território trilíngüe.
Tengo quatro años.
Y todos los bigodudos de la frontera querem fornicar com ella.
Muchos se masturbam secretamente pensando en ella.
Tengo dois años.
Non sei quem es mi padre.
Siento que non soy igual a los outros. Eles tiene padre. Yo non tengo padre.
Tengo apenas una madre y un abuelo. Eles tienen padre, madre, abuelos y abuelas.
Tengo também tia, tio, y una prima salbaje di quatro años. Mas non tengo padre. Y todos los polizeis, los jueces, los fiscales y los catedráticos de la fronteira querem fornicar com ella.
Los mecânicos, los pastores y los carteros também quieren.
Muchos jóbenes de la frontera se masturbam secretamente em nombre de la xe sy.
Muchos señores casados fornicam com sus legítimas señoras pensando em mi mamá.
Tengo três años.
Y tengo miedo del oscuro.
Quién nunca se ha masturbado em nombre de alguém quando era joven?
Los vendedores de lentes truchas y los sapateros también se masturbam em nombre de la xe sy.
Los vecinos árabes miran con sus ojos golosos para mi mamá, querem fornicar com ella.
Los pilotos de aviones klandês y otros kapos famosos en toda la triplefrontera pirirí pororó querem fornicar com mi mamá.
Los piragüês profissionales y los eletricistas também querem.
Tengo cinco años.
Ellos se masturbam soñando que están fornicando com la xe sy.
Estancieros, pistoleros, yaguaretê-abás, luizones, pomberos, rondam la loja de mio abuelo.
Mio abuelo, con su pistola 45 en la cintura, impede que los machos se aproximem.
Tengo dois años.
Los vendedores de miel falsificado, los especialistas y los taxistas también querem fornicar com mi mamá.
Praticamente todos los homens da fronteira querem fornicar com la xe sy de qualquer maneira.
Pero mi mamá non es boba.
Non se entrega fácil.
La sonrisa de la xe sy deixa los homens felizes y llenos de esperanzas.
Tengo três años.
La belleza hispano-guarani de la xe sy perturba el sexo de los machos fronterizos.
Y eu non tengo padre.
Los contrabandistas, los jardineiros y los contabilistas querem fornicar com mi mamá. Apostam, apuestan entre ellos para ver quem fornicará com ella primeiro.
La sonrisa de la xe sy enfeitiça a los homens solteiros y casados. Eles non resistem. Todos quierem fornicar com ela, querem comprar su sonrisa, querem gozar em sua boca.
Mia mama es amabelle. Trabaja en la tienda de mio abuelo. Estudou nel Inter en Asunción. Recibe a todos con la mesma sonrisa de sempre. Pero los bugres-doutores, los diplomáticos, los condes, los representantes comerciais, confundem tudo, quierem
fornicar com ella.
La beleza de la xe sy deixa los hombres meio desnorteados.
Todos quierem poner la pija en la belleza de la xe sy.
Nadie tem a pele mais suave que ella.
Todos querem descargar sus espermas gosmentos en la tatu ro’o de mi mami.
Pero la xe sy non les dá pelota.
Tengo siete años.
Los mais desesperados se masturbam en las salas de cine, em los baños públicos, en la madrugada trilíngüe, en nombre de mi mamá.
Querem fornicar com la xe sy para ficarem mais leves, querem liberarse del peso de sus espermas.
Pero mi mamá non es boba, non abre las piernas asi nomás, non se entrega fácil.
Tengo cinco años.
Y non tengo padre.
Solo tengo abuelo.
Soy diferente de todos los outros pero eso também pouco importa.
Aprendi a leer.
Ahora puedo leer los nomes de las carnicerías y de las outras tiendas de las calles principales para la xe sy mientras todos los machos de la frontera querem fornicar com ella.

Nota del autor: La pistola 45 del abuelo, un arma de guerra, le fue regalada por el Coronel Sapucaia, que hoy es nombre de ciudad brasileira que faz frontera com Capitán Bado (Paraguay).

Glossarioncito Selvatiko
Guaraní paraguayo-portuñol selvagem

Klandês
: Clandestinos.
Piragüé: Mix de cagüeta professional, dedo-duro y espión, abundante em Paraguay desde antes del tiempo del Dr. Francia.
Seccionaleros: Miembros de las Seccionales Coloradas, los famosos comités políticos del Partido Colorado del tempo del dictador paraguayo Alfredo Stroessner.
Sy: Mãe, madre.
Tatú-ro’o: Expressão inbentada por el poeta paraguayo Cristino Bogado nel tempo en que vivía nel Barrio Coca Cola y que significa vulva carnuda em guarani-paraguayo.
Xe: Yo, mi, mío, mía.
Yaguaretê-abás, luizones, pomberos: Bichos mágicos metade gente metade animal de la mitologia popular paraguayensis.
Ypakaraí: El famozo lago azul de la kanción Rekuerdos de Ypakaraí. El lago, situado a poucos quilômetros de Asunción, la capital paraguaya, se encontra actualmente contaminado.

Douglas Diegues (In: Triplefrontera Dreams, Katarina Kartonera)

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