Três poetas, quatro estradas e vários caminhos

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Três poetas, quatro estradas e vários caminhos


1 de maio de 2020
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Três poetas, quatro estradas e vários caminhos
Originalmente publicado em O Duque.

A vida é uma viagem! Sei que este é um velho clichê usado por letristas de música, poetas ou, algumas vezes, em cartões que acompanham flores; tão clichê quanto aquele que diz que o que importa é a viagem em si e não o destino final. Tá legal…

Acontece que, no início do século passado, três poetas — que viriam a ser consagrados ainda vivos — publicaram poemas que tinham a estrada como metáfora da vida: Robert Frost (1874-1963), norte-americano, e os brasileiros Manuel Bandeira (1886-1968) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

É muito lindo (ou não, como diria Caetano!) observarmos como cada um desses poetas encarou o tema e o refletiu em sua poesia através de seus conceitos de estética, técnica e beleza. Mais lindo ainda é não nos darmos conta de nenhum desses elementos quando nos deparamos com o poema; nesse momento só nos sobra a emoção; e o clichê, que poderia soar piegas, simplesmente não aparece. Os três poemas são arte pura.

É conveniente entendermos a conjuntura e a época em que foram escritos esses poemas. No Brasil, os modernistas já tinham dado a sua cara, e tanto Drummond quanto Bandeira eram protagonistas desse movimento modernista — principalmente em sua primeira fase, onde se procurava uma arte descontraída, com poemas que ignoravam as velhas escolas literárias. Esses poemas traziam em si uma linguagem mais coloquial, que, eventualmente, fugia às regras gramaticais, refletindo assim a fala popular.

Nesse mesmo tempo, Frost acabara de publicar “The Road Not Taken”. É aí que mora a beleza da coisa: Frost fez um poema repleto de técnica, que está incrivelmente escondida em uma primeira leitura: ali está a rima; a assonância — o jogo entre os sons “o” (como em “road”, both”, etc.) e “u” (como em “wood”, “could”, etc.) —; a aliteração, como no trecho: “equally lay / In leaves…”; e, para encerrar o tecnicismo, também facilmente encontramos rimas internas, rimas cruzadas e, principalmente, o ritmo, com quatro sílabas tônicas por verso. Já Drummond e Bandeira queriam quebrar todo esse esquema de escrita e estilo.

O poema “Estrada”, de Bandeira, foi publicado no livro “O Ritmo Dissoluto”, em 1924. O autor pensava assim de seu livro: “‘O Ritmo Dissoluto’ é um livro de transição entre dois momentos da minha poesia. Transição para quê? Para a afinação poética dentro da qual cheguei, tanto no verso livre como nos versos metrificados e rimados, isso do ponto de vista da forma; e na expressão das minhas ideias e dos meus sentimentos, do ponto de vista do fundo, à completa liberdade de movimentos, liberdade de que cheguei a abusar no livro seguinte, a que por isso mesmo chamei ‘Libertinagem’.” “Estrada nos faz perceber o caráter efêmero da vida, o que é possível pela observação da vida tranquila de uma cidade interiorana, e nos faz refletir sobre o que é realmente importante e urgente.

Já o poema “No meio do caminho”, de Drummond, foi o poema mais criticado, analisado, repudiado e escrachado do Movimento Modernista. O poema catalisou toda a raiva e abjeção à nova forma de poesia pretendida. Porém, vejam isto: “É formidável, o mais forte exemplo que conheço, mais bem frisado, mais psicológico de cansaço intelectual. Me irrita e me ilumina. É símbolo.”, escreveu Mário de Andrade. O poema não tem nenhuma palavra complexa, vale-se apenas das repetições; Drummond faz uma pedra insignificante exprimir o peso do mundo.

Comecei a me interessar pela poesia da língua inglesa por causa deste poema de Robert Frost que ousei traduzir para esta coluna: “The Road Not Taken”, publicado em 1920. É fácil ver por que este poema é um dos meus favoritos, ele traz um pensamento que é tão incrivelmente simples quanto universal: todos nós nos sentimos únicos e todos olhamos para trás, às vezes com remorso, outras com gratidão. A parábola ou a imagem da estrada da vida e os caminhos que escolhemos, muitas vezes sem muita lógica, é o que faz toda a diferença em nosso destino e em nossas vidas.

Boa caminhada!

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade (In: Revista de Antropofagia, n. 3, jul. 1928)

Estrada

Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual. Todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! Que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.

Manuel Bandeira (In: O Ritmo Dissoluto, 1924)

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I —
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost (In: Mountain Interval, 1920)

A estrada não trilhada

Duas estradas bifurcavam na mata amarela,
Chateado por não poder segui-las, uma e outra,
E por ser um viajante, fiquei ali parado
E olhei para uma delas até onde a vista alcançava
Lá onde misturava-se com as moitas rasteiras;

Então peguei a outra, também bela,
Talvez esta insinuasse uma acolhida melhor,
Porque era gramada e quisesse ser usada;
Apesar de que os que ali passavam
Deveriam tê-las gastas como por igual,

Naquela manhã sobre as duas repousavam
Folhas ilesas do negro de qualquer pisada.
Ah, deixo a primeira para outro dia!
Já sabendo como caminhos levam a outros,
Duvido mesmo se um dia voltarei aqui.

E deverei dizer isto com um suspiro
Em algum lugar distante no tempo:
Duas estradas bifurcavam na mata, e eu —
Eu peguei aquela menos trilhada,
E isso tem feito toda a diferença.

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