Sobre o medo do mar (em quatro movimentos)

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Sobre o medo do mar (em quatro movimentos)


1 de março de 2019
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I – Adagio

Os segredos das ondas e das velas,
Estes nunca me serão revelados
Porque tenho estes pés vermelhos
E, entre mim e o mar, há uma cancela.

Assim, de cada nau que tomei uma quota
Nos meus sonhos de corsário,
Guardo a sete chaves, num relicário,
O prazer de ler das estrelas as rotas.

Mas sou inútil marujo, capitão demente.
Embarcado, fico enjoado e prostrado,
Por isso o meu forte fica nas areias.

Dali posso sentir, nos pés molhados,
A água fria do mar tornando-se quente
Pelo sangue que corre em minhas veias.

 

II – Allegreto

Juro,
Porque ouvi de Poseidon, em pessoa,
Um conselho mais do que prudente:

“Evita, filho, minhas águas salgadas,
Deixa-as para os da pele curada,
Deixa-as para os escolhidos.
Eu que fui engolido por Cronos, meu pai,
E depois vomitado com meus irmãos,
Aviso: Não esperes de mim tal perdão.”

Juro,
Porque não era sonho, nem era miragem.
Esta é a razão por ficar aqui no porto
Ouvindo as marolas e os marinheiros.
Não é medo, não!
Só precaução.

 

É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro
Chico Buarque

III – Allegro

Já achei minha desculpa:
Todo valente tem medo do mar,
Ouvi numa conversa jogada fora,
Numa conversa de rua.

Já posso esquecer algumas palavras:
Bombordo, barlavento, proa,
Amantilho, través, valuma,
Adriça, escota, popa, genoa

E nem carrego nenhuma culpa.
Agora, já achei minha desculpa:
Todo valente tem medo do mar.

Que me chamem para velejar,
Que me chamem para pegar marlim,
Quero ver!
Quero ver capitão em meu arresto.

Saio a gargalhar, saio de finta,
Sou valente!
Não preciso embarcar.

 

IV – Andante

Trabalho de Sísifo
É perseguir o horizonte;
A gente navega, navega, navega,
E o danado está sempre longe.

Quando perco a linha de vista,
É quando estou aterrado
Ou ancorado em algum boteco podre,
Bêbado no colo de qualquer biscate.

Eis aí o mistério:
Por que enfrentar o mar?

Há aqueles que navegam por precisão
E há os que navegam por decisão.
Sou nenhum dos dois,
Navego porque fui condenado,
Como foi Sísifo,
Porque não sei fazer outra coisa,
O convés é meu jardim e meu quintal.

Mas navegar tem suas vantagens:
Não conto o tempo por dias ou horas,
Conto o tempo por portos atracados.
Assim entre a partida e a chegada,
Ninguém me sentirá saudades
E a única verdade certa é que,
Quando morrer, não serei enterrado,
Serei submerso
E a minha sentença, cumprida.

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