REFLEXO NO ESPELHO (EM QUATRO MOVIMENTOS)

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REFLEXO NO ESPELHO (EM QUATRO MOVIMENTOS)


19 de março de 2019
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I – Adagio

Não sou eu aquele na minha frente.
(Não se parece comigo, nem de perto)
Sou bem mais moço e atraente
do que aquele coitado e incerto.

Sou bem mais cabeludo e feliz.
Um tantico maior e mais magro.
Não tenho aquela cicatriz
e com aquela roupa não me flagro.

Os olhos tristes dele, não tenho.
Com certeza não sou canhoto.
(Não que eu seja um serafim)

Mas me peguei a franzir o cenho
depois que vi o seu desgosto
por pensar o mesmíssimo de mim.

II – Moderatto

Quem é aquela figura
refletida no espelho?
Tem traços de amargura,
dentes quase parelhos,
um quê de candura,
meio cansada, olhos vermelhos…

Já vi um espectro bem igual:
Num reflexo na janela do trem,
talvez numa imagem virtual
pintada na pupila de alguém.
Parece um mero fulano de tal,
um pobre dum zé-ninguém.

Copiando meus trejeitos
com uma fluência exata;
até a altura do peito,
aquela figura ingrata
mostra meus defeitos
sem piedade, na lata!

De tão parecido comigo
custo a crer no que vejo.
Não é justo este castigo:
Cadê aqueles tantos desejos?
Cadê aquele rosto antigo?
Onde foi parar todo o vicejo?

III – Allegretto

O que são essas rugas, esses traços?
Foi o tempo? Os amores? A lida? O cansaço?

Esse sorriso amarelo veio de onde?
Dos cafés? Dos bares? Da noite? Responde!

E vis-à-vis com você mesmo, ensimesmado,
você ainda se lembra de seu passado?

Naquele tempo que ainda lhe encanta,
era este o mesmo reflexo que agora lhe espanta?

Meno mosso

Não! Não precisa desviar os olhos de mim,
sou o único que vai entender o seu fim.

Sou aquele que te acompanhará todos os dias.
Sou aquele que nunca lhe dará alforria!

IV – Andante

‘Be what you would seem to be’
Alice in Wonderland (Lewis Carroll)

Sou a pena branda e perene
utilizada pelo tempo.
Tempo, tempo, tempo!
Remédio e algoz.
Incontinenti pena.
Meu reflexo, por dever do destino,
faz o narciso de refém
e do afortunado, um quidam.
Assim, como apenado e pena,
nosso encontro sempre esteve marcado.
Um compromisso diário
repetido (ad nauseam), sem agenda.

Para você, fiquei sempre disponível.
Vi lágrimas,
vi sorrisos,
vi todos os seus tecidos
e sempre soube tudo!
Como um bom confidente, fiquei calado.
E você sempre apareceu diante de mim,
nu,
Desde o sempre até o fim.

Tempo, tempo, tempo!
Remédio e algoz.
O meu lado ficou sempre a postos
para o seu deleite.
Nunca houve segredo entre nós,
mas, algumas vezes,
você via só o que queria ver.
Eu sempre lhe revelei a verdade,
nunca por crueldade:
É a minha natureza — já que sou pena!

Descanse agora, narciso, sua beleza.

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