Pílulas azuis e vermelhas e três poetas do Paraná

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Pílulas azuis e vermelhas e três poetas do Paraná


1 de maio de 2020
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Pílulas azuis e vermelhas e três poetas do Paraná
Publicado originalmente em O Duque.

“Não sou pessimista, sou um otimista informado!” Li este aforismo num texto do Cristóvão Tezza; não procurei no Google para saber se o dito seria uma paráfrase de outro escritor. Sem o oráculo, fica o crédito para o Cristóvão.

É que eu estava aqui a pensar na utilidade da poesia nos dias de hoje e o motivo que levaria alguém a se interessar em ler poesia — e ler sobre poesia — com tanta coisa esquisita acontecendo neste mundo vasto mundo. Concluí que a nossa realidade é como se fosse uma televisão provida de centenas de canais e que todos os programas fazem parte de um único BBB mundial onde somos todos confinados e espectadores ao mesmo tempo. Cada canal é uma realidade própria que podemos assistir ou zapear aleatoriamente; desta maneira, teremos o Egito num canal, o Maranhão noutro, naqueloutro estará o rolezinho nos shoppings; política, teatro, Afeganistão, Lady Gaga, virais e tudo o mais que existe têm seus canais. Entendido o enredo, fica claro que este é um canal da poesia. A poesia tem a difícil missão de nos tirar da realidade para contemplar. Contemplar como verbo intransitivo. Contemplar com o significado de transcender. A poesia é precisa. Necessária para que humanos continuemos, ainda que eu não consiga definir se a poesia seria a pílula azul (blissful ignorance of illusion) ou a pílula vermelha (painful truth of reality) que tomamos.

Se bem que às vezes a poesia é pílula azul, outras é pílula vermelha; é como a tal natureza da luz: é onda e é, também, partícula. Mas aí é outro assunto. Get off of my cloud!

Bom, toda esta introdução para dizer que fiquei muito feliz ao zapear o canal de poesia e ler a edição especial de maio de 2013 do Suplemento Literário de Minas Gerais, publicado pela Secretaria de Cultura de Minas Gerais e que tem o apelido carinhoso de “SUPLEMENTG”. O SUPLEMENTG traz “A NOVA POESIA BRASILEIRA, VISTA POR SEUS POETAS”. Cinquenta e quatro poetas, nascidos a partir de 1960, revelam quais são os seus poemas preferidos e o porquê da escolha. Como diz o editor do Suplemento, Fabrício Marques, o objetivo foi duplo: “Escolher um poema memorável e escrever um comentário do que motivou a escolha”. 

Ali estão: Alberto Pucheu, Tarso de Melo, Fábio Weintraub, Eucanaã Ferraz, Marize Castro, Angélica Freitas, André Luiz Pinto, Carlito Azevedo, enfim um belo time de poetas. Mas a felicidade que senti foi a de ter encontrado, em meio a tanta gente boa, Rodrigo Garcia Lopes, Miguel Sanches Neto e Maurício Arruda Mendonça. Três paranaenses. Rodrigo e Maurício, de Londrina, e Miguel, de Bela Vista do Paraíso. Dos três, só Miguel não teve um poema publicado no folhetim. E é muito bacana ver paranaenses nessa resenha, primeiro porque o Paraná, com raríssimas exceções, nunca esteve no planalto dos poetas brasileiros. Os mais famosos e com maior projeção nacional são Leminski (que está em alto relevo por estes dias); Helena Kolody; Emílio de Menezes; Emiliano Perneta, todos esses já mortos; Alice Ruiz (viúva de Leminski) e Domingos Pellegrini. Se me esqueci de alguém, fica esquecido. Reproduzo aqui os dois poemas publicados e alguma informação sobre seus autores, deixo Miguel para uma outra coluna.

Pausa: Não sou crítico literário! Não tenho tal pretensão, tampouco tenho o tempo necessário para pesquisar, ler, revisar e escrever sobre leituras novas e antigas — tarefas estas que são fundamentais para o crítico e que necessitam de razoável quantidade de tempo para realizá-las frequentemente. Sem contar que não tenho o cacoete de fazer amigos e inimigos devido ao pensamento ou opinião que escrevo. Os poemas e poetas que trago para este espaço são aqueles que gosto e que me tocam e espero que toquem outras pessoas. Os motivos para trazê-los aqui podem ser tão variados quanto diferentes. Às vezes não me privo de fazer uma análise bem sucinta do poema, outras vezes deixo a análise para o leitor, para que ele se vista com o poema e o interprete segundo sua vivência ou sua experiência de vida.

De volta. Rodrigo Garcia Lopes, poeta, tradutor, compositor e cantor, estreou com o livro “Solarium”, em 1997; tem ainda publicados os livros de poema: “Visibilia” (1996), “Polivox” (2001), “Nômada” (2004) e “Estúdio Realidade” (2013). Rodrigo tem outros tantos livros, artigos, músicas, traduções e resenhas. Enfim, um poeta maduro e de primeira grandeza no cenário brasileiro de literatura. Do seu livro “Solarium”, o SUPLEMENTG tirou o poema “O FOTÓGRAFO”. Na minha visão, “O FOTÓGRAFO” deve ser lido de um fôlego só. Num ritmo frenético, uma sucessão de imagens, como fotografias fossem, sem tempo nem conexão aparentes, nos sufoca e nos transporta para — no meu caso — uma sacada de hotel. O poema é feito de imagens e de falta de ar.

Maurício Arruda Mendonça, poeta, tradutor e dramaturgo, deve estar muito feliz, sua peça “A Marca da Água”, em parceria com Paulo de Morais, ganhou o prêmio Shell de melhor autor de 2013, ganhou também o prêmio Fringe First, dado anualmente pelo jornal escocês The Scotsman. Seu poema “Eu caminhava assim tão distraído” foi publicado no livro que tem o mesmo título do poema, em 1997; já foi musicado por Bernardo Pellegrini. O que eu mais gosto no poema é o lirismo deslavado, escancarado e sem-vergonha; é um poema para ser lido em adágio. Maurício usou uma pontuação visual que dá todo o ritmo ao poema, mas não é este o único segredo; se seus versos não nos cortassem as vísceras, não adiantaria nada.

O FOTÓGRAFO

Não perdia tempo com palavras
“Você ama de verdade?”
Nu, na sacada do hotel em Tanger,
a propos de rien
olhando a cena como quem celebra —
Um copo de suco, cigarros, ideogramas chineses,
cartões postais e fotografias
espalhados numa mesa negra:
o piano de Einstein
tecia linhas de fuga
formando espirais
que desapareciam.
Imagista obsessivo, ele havia penetrado
no outro lado do espelho e saído
à procura de Alice e do coelho da lua.
“Previsão de neve no domingo”. No deserto,
“tudo é phanos: essas nuvens distantes se elaborando
e refletindo-se de volta
no espelho da piscina”.
“Você vem?”.
Então fotografava o futuro, apreciava um processo
de vir-a-ser, ondulações e o ar-reflexo das ondas
depois de um corpo mergulhar.
O mundo todo num clic.
Arqueiro de Herrigel,
a roleta russa do olhar
dispara setas à deriva, em direção ao céu,
revelando polaroides & esquizofrenia.
Ruído de oceano e pássaros
se mixando com as imagens
sem som do vídeo.
Você imaginando a neve, breve,
de novo caindo como antes,
nossas faces se dissolvendo com os galhos
agora distantes
levados para sempre
pela violência do vento.
Tudo se solidifica.
A linha do céu retém o último poente
até que ele explode o índigo da noite.
Ondas de oxigênio: um céu de seda.
À velocidade do tempo, um aparelho
condiciona o ar, umedece nossas vozes.
Uma sucessão de flashes
nos mixa com cartas e fotografias, brancas, numa mesa.
As mesmas imagens
voltam misturadas aos ruídos
e a alucinação do real recomeça:
o fotógrafo havia decidido
se deixar levar pela fúria dos eventos, seguir
as dicas sutis dos hieróglifos
e recolher os dados em silêncio.
Afirmar:
os instantes não seriam mais
tensos como antes mas
intensidades,
temperaturas, imprevisíveis
retornos.
[…]

Rodrigo Garcia Lopes (In: Solarium, 1994)

EU CAMINHAVA ASSIM TÃO DISTRAÍDO

olha   eu ando louco à procura
           de um olhar que como o seu
           me acalme um pouco
           e eu possa chamar poema
           salto de cervo
           lua de outono

olha   a parede se descasca
           poeira em tudo o que fica
           pense um pouco cinza de
           cigarro tubo de caneta
           não foi assim que eu te
           ensinei a mentir tenho
           febre algum tipo de dor
           mas ainda que eu erre

olha   velocidade é uma fissura
           da juventude solidão é
           um método maluco de saber
           quem está dentro de você
           quando a cidade inteira
           te odeia mas
           entre almas de jeans
          você segue

olha   nada na neblina além de
          borboletas transando
          estátuas se mexendo
          pessoas que se esqueceram
          de sorrir e você vai
          se matando
          de tanto dizer sim
          mas

olha   a chuva fina no asfalto
          meu suor em sua pele
          pra sempre

Maurício Arruda Mendonça (In: Eu Caminhava Assim Tão Distraído, 1997)

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