“Não estar morto não é estar vivo”

[contact-form-7 404 "Not Found"]

“Não estar morto não é estar vivo”


1 de maio de 2020
Tags:

“NÃO ESTAR MORTO NÃO É ESTAR VIVO”
Publicado originalmente em O Duque.

O título faz todo o sentido. Aliás, o aforismo não é meu; é de e. e. cummings — escreve-se assim mesmo, em minúsculas —, poeta, dramaturgo, roteirista e pintor norte-americano que, apesar de não ter tido, à época, o reconhecimento da crítica, teve e continua a ter um enorme reconhecimento popular (o meu grande e querido amigo revisor daqui d’O Duque, provavelmente ou por certo, iria corrigir “norte-americano” para “estadunidense”, não fossem estes parênteses). De volta… Da mesma maneira, faria todo o sentido se trocássemos de lugar as duas palavras principais do ditado: “morto” e “vivo”. Ao fazer esta inversão, a gente se depara com um trocadilho bacana: “NÃO ESTAR VIVO NÃO É ESTAR MORTO”.

Refletir sobre o significado desses dois aforismos é ardiloso. Há toda sorte de interpretação: há quem caminhe a estrada da autoajuda e escolha o pensamento de que estar vivo não é somente ou ainda ter a habilidade de inspirar e expirar, e sim que a ideia de estar vivo é sentir o coração bater apressado quando da iminência de se fazer algo que nunca se imaginara capaz ou, dito de outra maneira: estar vivo é pegar todo o segundo que a vida oferece e trabalhar para ser feliz o maior número de minutos possível.

Mas, hoje, a autoajuda não é a estrada que eu quero seguir; quero continuar a falar de um poeta único que experimentou radicalmente a forma, a pontuação, a sintaxe e abandonou as técnicas e estruturas tradicionais para criar uma nova forma de expressão poética.

e.e. cummings, nascido Edward Estlin Cummings, foi, desde cedo, encorajado pelos seus pais liberais a desenvolver seu dom artístico. Formou-se em Harvard (magna cum laude) e em seu último naquela Universidade, ficou imensamente interessado nos novos rumos que a literatura e a pintura estavam a tomar naquela época; em companhia de John Dos Passos, Foster Damon e Scofield Thayer, começou sua experimentação com o verso livre e, também, autodidata, como pintor cubista. Seu primeiro poema apareceu na publicação “Eight Harvard Poets”, de 1917.

É curioso notar que já em seus primeiros poemas, cummings descobrira uma maneira original de expressar suas ideias: ele empregava verbos/advérbios como substantivos, abusava de neologismos e utilizava-se de indulgência para brincar com a pontuação: as letras minúsculas eram a regra, as maiúsculas eram utilizadas somente para dar ênfase; particularmente, o uso da letra minúscula para a palavra “i” — que, em inglês, normalmente é escrita em letra maiúscula — criou uma identidade, uma marca bem conhecida para o poeta, uma personagem que não era para ser notada dentro do poema, porém muito conhecida por todos os que o liam.

Sobre sua vida pessoal: cummings casou-se a primeira vez com Elaine Orr, ex-mulher de seu mentor e colega, Scofield Thayer; tiveram uma filha, Nancy, que nasceu enquanto Elaine ainda era casada com Thayer. Depois de um ano, Elaine divorciou-se de cummings e foi morar na Irlanda, para onde levou Nancy e, além disso, proibiu cummings de ver a filha. Seu segundo casamento, com Anne Barton, também terminou em divórcio. Esses desastres domésticos afetaram a personalidade de cummings, transformando-o num crítico duro da cultura norte-americana.

e.e. cummings foi, também, um romântico incurável em sua visão da vida e um avant-garde modernista que procurou explorar meios nada usuais para expressar-se. O poeta morreu em setembro de 1963 — porém, para validar o trocadilho de seu aforismo, está vivo através de seus quase três mil poemas, pinturas e outras artes.

O poema que traduzi — “[eu levo seu coração comigo(eu o levo dentro]” — é um exemplo muito interessante do estilo de cummings. Pode-se pensar que a falta de espaços entre pontuações ou a inclusão de colchetes no título, além de anáforas e paralelismos, não têm função dentro do poema e serviriam apenas para criar uma assinatura do poeta. Não é bem assim! Numa rápida análise, observem que a voz que vem de dentro dos parênteses, apesar de ser a mesma voz em todo o poema, tem um tom mais terno e suave, além de funcionar como uma espécie de voz explicativa; é como se o personagem — ou a voz — revelasse o que está dentro do seu coração. Fica claro, para o leitor, que as palavras que estão fora dos parênteses são mais simples e menos clichês. A falta de espaço entre palavras e parênteses tem a clara intenção de, através da forma visual, criar uma unicidade entre os amantes do poema (afinal, o personagem leva um coração dentro de seu coração). cummings, com o poema, ensina como ser lírico e moderno ao mesmo tempo, sem cair na armadilha do romantismo exacerbado.

[i carry your heart with me(I carry it in]

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear;and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that’s keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

e. e. cummings (In: Complete Poems by e. e. cummings: 1904-1962)

[eu levo seu coração comigo(eu o levo dentro]

eu levo seu coração comigo(eu o levo dentro
do meu coração)eu nunca estou sem ele(qualquer lugar que
vou você vai,querida;e qualquer coisa que é feita
por mim também é seu fazer,meu bem)
não temo
destino nenhum(pois você é meu destino, doçura)não desejo
mundo nenhum(pois linda você é o meu mundo,minha verdade)
e é você que é tudo o que a lua sempre significou
e tudo que o sol sempre cantará é você

aqui está o segredo mais profundo que ninguém conhece
(aqui está a raiz da raiz e o broto do broto
e o céu do céu de uma árvore chamada vida;que cresce
mais alta do que a alma pode esperar ou a mente pode esconder)
e esta é a maravilha que vem mantendo as estrelas separadas

eu levo o seu coração(eu o levo dentro do meu coração)

e. e. cummings (In: Complete Poems by e. e. cummings: 1904-1962)

Deixe um comentário