Hipertexto e “As Coisas de João Flores”

[contact-form-7 404 "Not Found"]

Hipertexto e “As Coisas de João Flores”


1 de maio de 2020
Tags:

Hipertexto e “As Coisas de João Flores”
(ou Da importância no arco-íris aprisionado em uma bolha de sabão)
Publicado originalmente em O Duque.

Dia desses, recebi um convite muito bacana para tomar uma cerveja com o Ademir Demarchi e o Zé Flauzino. Já conhecia Flauzino; Demarchi, só pelos textos e poemas. Maringá, noite curitibana e eu, besta, só de camiseta. Tudo certo, se não estivéssemos numa mesa à calçada! A cerveja gelada, as risadas e a aula meio que peripatética de Demarchi valiam a pena do frio.

Lá pelas tantas, ganhei de Demarchi seu “Pirão de SerEia”, editado pela Realejo em 2012 e que traz toda a poesia (até 2010) desse maringaense que resolveu ficar mais perto do mar. Com a dedicatória, então, a noite já estava ganha e a prosa quente com a cerveja gelada mudaram seus status para fringe benefits.

Deixando de ser ditirâmbico, pois uma palavra a mais e no lugar errado pode virar puxa-saquismo, naquela noite um dos assuntos que girava volta e meia e meia-volta era sobre Marco Cremasco e Mauro Faccioni; dois engenheiros e poetas que, por motivos de profissão, se mudaram de Maringá. Depois de mostrar minha ignorância sobre a obra desses poetas, Flauzino, prontamente e desconsiderando o pensamento machista que diz: “Livro, mulher e violão não se emprestam…”, emprestou-me “As Coisas de João Flores”, último livro de poemas lançado por Cremasco. Flauzino é igual a mim e só empresta livros para pessoas que gostam, mas que gostam muito de livros. Fiquei feliz em dobro: pelo livro e pela confiança de Flauzino em saber que eu não iria rabiscar nas páginas d’As Coisas de João Flores (apesar de que a vontade foi enorme) e que, evidentemente, irei devolvê-lo um dia, se bem que esse dia está às calendas.

Marco Cremasco é de Guaraci, no setentrião do Paraná. Sempre gostei da palavra “setentrião”, mesmo quando não sabia o seu significado. De início, para mim, “setentrião” significara algo muito velho, antigo; na minha cabeça, um homem setentrião era quase um Matusalém. Depois, ainda com a preguiça de ir ao dicionário, matutei que setentrião significaria grotão ou qualquer lugar escondido do interior. Que desastre! A verdade é que eu tenho muito dessas incomodações com as palavras, aliás, incomodação é uma palavra que existe, mas não existe nos dicionários; uma palavra desterrada.

Voltando ao Cremasco, seu “As Coisas de João Flores” foi editado pela Patuá agora mesmo em 2014. Segundo o livro, João Flores, um alter ego de Cremasco, trazia a vida em um saco de coisas; assim, a primeira pergunta que me veio à cabeça quando me deparei com o título do livro foi: “Que coisas serão essas?”. Cremasco não nos dá a chance de adivinhar, já entra de sola e, antes mesmo do prefácio do Demarchi, nos apresenta João Flores num pequeno texto sem título. Assim, fico à vontade e não me preocupo em fazer spoiler. “João Flores nasceu catando cavacos.” Desta maneira, os poemas do livro dizem respeito às lembranças inventadas dessa personagem (parodiando o título do maravilhoso livro do Manoel de Barros), um amálgama do matuto com o urbano que é João Flores.

Na primeira folheada que dei, sabe aquela olhadela que a maioria das pessoas normais dá ao ter um novo livro novo nas mãos?, após ler alguns poemas, imediatamente remeti-me ao livro “La Vie en Close”, do Paulo Leminski, de 1991. Penso que minha associação mental entre os dois autores aconteceu porque muitos poemas de Cremasco parecem haicais. Não me refiro àquele haicai tradicional de dezessete sílabas espalhadas em três versos, mas do haicai como conceito de poesia curta, densa, com jogo de palavras e de conteúdo. Leminski era perito nesse tipo de poesia e é muito interessante notar que Cremasco, nesse estilo, conseguiu desenvolver seu próprio caminho. É um belo livro e é uma ótima sugestão de leitura, assim como o livro do Leminski. Fica sugerida, também, uma nova rodada de cerveja com o Demarchi e o com o Zé, álibi para uma boa prosa. Desta vez, levarei um moletom.

Jornada

existe um deserto
para atravessar

um deserto
sem fim

este deserto
dentro de mim

Marco Cremasco (In: As Coisas de João Flores, Patuá, 2014)

Sutil

nas entrelinhas
escrevia palavrões
com palavrinhas

Marco Cremasco (In: As Coisas de João Flores, Patuá, 2014)

Metrópole

somos viajantes do tempo gravado
nas esquinas de nossas avenidas
indiferentes ao concreto armado
nos lábios trêmulos dos homicidas

passamos simplesmente do passado
ao presente ignorando as feridas
abertas por um futuro exumado
da esperança tardia dos suicidas

a vida não é vítima ou o bandido
nas garras da metrópole, vai além
do que existe entre o gatilho e o estampido

e sabe muito bem o que convém
ao destino do assassino perdido
na solidão de ser no outro, ninguém

Marco Cremasco (In: As Coisas de João Flores, Patuá, 2014)

Deixe um comentário