Há muita coisa acontecendo

[contact-form-7 404 "Not Found"]

Há muita coisa acontecendo


22 de março de 2019

I – Andante

Há muita coisa acontecendo
enquanto eu tomo esse café quente.

À minha volta,
dois distintos discutem,
mimetizando o mundo que se pulveriza em opiniões.

As palavras podem
confundir
mais do que relatar ou podem
transmitir
a experiência contida no próprio acontecimento,
num contínuo acúmulo de duplos sentidos.

À minha volta,
a crueldade nasce do cerne da imaginação,
pulsando e flutuando em tumultos.

A experiência antecede a palavra,
que é incapaz de
comunicar
— num milésimo de segundo —
o seu próprio sentido e suas elipses,
sem o uso da imaginação;

isso pode ser lindo,
mas é cruel.

Enquanto eu tomo esse café quente,
não ouso mais
descrever
o que há à minha volta.

Guardo as palavras num cofre
para evitar qualquer reação, mas
não vou mentir:

Não é só luz no fim do túnel:
Há o fim.

 

 

II – Andante Moderato

1

Eu venho das ruínas,
dos templos caídos, das trincheiras,
das vilas abandonadas por todos os deuses.
Já vi muitos entardeceres,
tempestades, arco-íris e pestes.
Mesmo assim, recuso-me a lamentar
por qualquer acontecimento
porque sei que tudo se repete e se repete
com pontos de vista diferentes
— para cada homem vivo.

2

Então, por que me fizeste homem,
além da costela a ser doada, pélvis,
ossos e artérias?
Para acreditar no Toque da vida?!
Por isso, eu NÃO devo manter a minha boca fechada,
nem meus olhos cerrados
nem meu coração gelado,
para proteger o menor de nós mesmos;
ou, então, termina minha vez e me arrebata
do campo de batalha.

3

Há tanta coisa acontecendo
que não distingo mais o inverno, nem o outono,
e não me distingo mais na multidão,
tampouco, distingo um sorriso falso.
Minhas mãos doem, não pelo frio inexistente,
só um reflexo da dor que tenho na alma.
Por essa dor, me chamo homem;
e gira-mundo, me sinto humano.

Mis refugios más bellos son sitios solitarios a los que nadie va
y en los que sólo hay sombras que se animan cuando soy la hechicera.

 

 

III – Adagio

Há muita coisa acontecendo!
E eu aqui parado com a mão no bolso,
Esperando este mês aberto pelas chuvas
Dar urgência ao crescimento das rosas.

Ao fim de um conto, onde só eu morro,
Ainda num sopro de eternidade,
Acaba-se a festa do mundo
E eu choro por mim mesmo.

O silêncio dorme nos corredores
Em plena tarde que solapou o sonho
E engendrou a armadilha de sua captura.

Enquanto isso, lá fora, ao meu redor,
A terra treme, edificando a vida e a morte.
O céu só observa, fiel como um espelho.

 

 

IV – Largo

Para Marina, Betina e Theo

Há muita coisa acontecendo

por aí

enquanto

meus meninos brincam aqui fora.

Nada

importante.

Deixe um comentário