Edward James

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Edward James


1 de maio de 2020

Edward James, 1907–1984

Publicada originalmente no Jornal Cândido

Dia desses, um sábado, eu estava meio cansado da vida, com uma preguiça daquelas que assola meio país depois do almoço, sentei para brincar de zapear a TV (se é que existe este verbo) e, ao mesmo tempo, meditar um pouco — um eufemismo para “pensar na vida”. Estava eu lá, jogado no sofá, sem muitas pretensões de assistir a alguma coisa interessante, e não é que eu me deparo com um documentário sobre um tal de Edward James? Fiquei imediatamente fascinado com aquela figura descomunal, louco de pedra, excêntrico, bon vivant, poeta, inglês de sangue azul, rico, mecenas, colecionador e patrono das artes. Convenhamos, são bastantes adjetivos para um único ser humano. Assim que terminou o documentário, claro, fui ao Google para saber mais sobre E. J., queria ler suas poesias e entender o porquê da minha ignorância sobre esse homem. Nem bem cheguei ao notebook para pesquisar, parei e pensei que seria uma boa ideia eu reescrever minha primeira coluna para o Cândido — afinal, tamanha honraria dada a mim merecia um assunto diferente e, assim, as traduções de três poemas de William Carlos Williams poderiam esperar um pouco mais.

Edward William Frank James foi o maior incentivador do Surrealismo no começo do século XX. Sabe-se que Dalí, Tchelitchew, Magritte, Max Ernst, entre outros, moraram em sua casa, onde podiam exercitar suas virtudes. Aliás, “casa” é um substantivo que não deveria ser usado para o lugar chamado West Dean Estates, que tem cerca de 4.000 hectares e hoje é uma Fundação — Fundação Edward James — e que abriga o West Dean College, dedicado à educação de qualidade em artes criativas e, também, à conservação de artes.

A vida de James foi rica em acontecimentos ímpares, muitos; sua biografia não é o objetivo deste texto, mas, só para temperar, cito dois desses acontecimentos: bissexual, sempre insistiu que não consumaria relacionamento com nenhum homem porque ele amava muito as mulheres; casou com Tilly Losch, mas ela pediu divórcio no segundo dia após o casamento. Em 1935, Edward James fez um acordo com Salvador Dalí para comprar seus trabalhos mais importantes; um tipo de acordo esquisito que possibilitou a James comprar, por um pequeno preço, obras que incluíram a escultura “Telefone Lagosta”, dois sofás “Lábios de Mae West” e o óleo sobre tela “Canibalismo de Outono”. Sabe-se que Dalí disse que Edward James era mais louco do que todos os surrealistas juntos.

Contudo, Edward James será conhecido, acredito, como o inglês louco que construiu “Las Pozas”, um jardim surrealista localizado em Xilitla, a cerca de 700 km da Cidade do México. “Las Pozas” é um lugar fantástico que ocupa uma extensão enorme da floresta local. No imenso percurso podem-se encontrar cascatas, esculturas, mãos e cabeças de concreto, escadas em espiral que terminam no ar, arcos góticos, pavilhões de níveis indeterminados — enfim, uma arquitetura abraçada pela selva e que exclui qualquer rótulo. Um empreendimento fantástico que se iniciou em 1947 às custas da venda do rico acervo de artes — principalmente surrealista — amealhado por Edward e que lhe serviu de morada por muito tempo, até a sua morte em 1984, ocorrida no norte da Itália.

Este poema que traduzi dá a impressão de que foi escrito após a conclusão de “Las Pozas”, mas acho que foi somente um insight ou uma profecia que ocorreu ao poeta no final da década de 1930. O poema lhe serve como epitáfio.

 

The Bones of My Hand
I have seen such beauty as one man has seldom seen;
therefore will I be grateful to die in this little room,
surrounded by the forests, the great green gloom
of trees my only gloom — and the sound, the sound of green.
Here amid the warmth of the rain, what might have been
is resolved into the tenderness of a tall doom
who says: ‘You did your best, rest’ — and after you the bloom
of what you loved and planted still will whisper what you mean.
And the ghosts of the birds I loved, will attend me each a friend;
like them shall I have flown beyond the realm of words.
You, through the trees, shall hear them, long after the end
calling me beyond the river. For the cries of birds
continue, as — defended by the cortege of their wings —
my soul among strange silences yet sings.

Edward James (In: The Bones of My Hand, 1938)

Os ossos da minha mão

Vi tanta beleza raramente vista por homem algum;
portanto, ficarei eu agradecido por morrer neste quarto comum,
rodeado por florestas, esse imenso verde latejante
das árvores a minha única tristeza — e o som, o som verdejante.
Aqui, no meio do calor da chuva, qualquer desatino
é resolvido pela ternura de um grandioso destino
que diz: “Você fez o seu melhor, descanse” — e depois de você, o florescer
daquilo que você amou e plantou ainda irá sussurrar o que você quis dizer.
E os espíritos dos pássaros que amei virão amparar-me, cada um, um amigo de mim;
igual a eles eu deveria ter voado além do reino dos verbos.
Você, através das árvores, deveria tê-los ouvido, muito depois do fim,
chamando-me para além do rio. Para que o clamor dos pássaros
continue, enquanto — defendida pelas suas asas em cortejo —
minha alma entre silêncios insólitos ainda canta em festejo.

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