Deslembranças

[contact-form-7 404 "Not Found"]

Deslembranças


22 de março de 2019

I

quando eu era velho, eu já não gostava mais de passarinhos. eu penso que eu achava que eram todos iguais. menos o urubu, que esse é doidinho por um defunto; menos o quero-quero, que esse a gente só vê na grama correndo atrás de bicicleta; e menos a águia, que essa a gente só vê em filme da NatGeo. assim, velho, eu já não gostava era de quase nada mesmo; gostava de que me deixassem quieto. quieto, eu ficava pensando em palavras. às vezes, eu me encafifava com alguma esquisita: crisântemo, algoz, solstício. Drummond gostava de Belize, eu gosto de alfazema, mais pelo som que pelo significado. as rimas de alfazema não são muitas e tampouco interessantes, mas isso é outra história. as palavras pururucavam na minha cabeça. quando eu era velho, eu acho que eu era rabugento mesmo.

II

quando eu era bonito, eu nem dava bola para passarinhos, gostava mesmo era de passarinhar. a noite era dia todos os dias e os dias muito curtos. ainda assim, gostava das palavras. eu tinha uma ideia de que passarinhos e palavras eram a mesma coisa. uma vez me caiu na mão um poema do Leminski. falava da dança alegórica entre as vogais e as consoantes e, bonito, quis entender essa dança. os bonitos querem entender de tudo sem dar o tempo em troca. tempo e ritmo. as palavras não gostam desse tipo de relacionamento. como passarinhos, fogem e voam. têm ritmo próprio as palavras. quando eu era bonito, eu deveria ter aprendido como pastorear passarinhos e palavras.

III

quando eu nem tinha nascido, eu sabia que passarinhos e palavras eram a mesma coisa. eu adorava ver as palavras voando. as palavras têm muita sede e, volta e meia, elas vinham beber no meu bebedouro. eu tinha um truque para trazê-las ao meu lado: mantinha a água sempre fresca e farta. aí dava de tudo quanto é variedade de passarinhos: calêndula, fiofó, abajur, brisa. muitas vezes eles vinham em bando. foi nesse tempo que aprendi que uma revoada de passarinhos se chama poema.

IV

quando eu era uma ideia, ouvi dizer que os dinamarqueses são felizes — os mais felizes do mundo — porque têm uma palavra intraduzível que os faz felizes. eles têm hygge. aqueles que falamos o português devemos ser os mais tristes, porque temos uma palavra intraduzível que nos faz tristes. nós temos um passarinho muito triste que se chama saudade.

V

quando eu inventava de inventar, e por gostar tanto de passarinhos e seus significados… uma vez, inventei uma língua só para mim, com conjugações, tempos e regras gramaticais. ninguém mais a entendia, era a minha língua! num ritmo que lembrava o francês: la famille, deux, les oiseaux, une fenêtre. eu podia escrever minhas coisas mais íntimas nas últimas páginas do caderno, meus segredos a salvo. olhando desde agora… não me lembro se eu tinha um passarinho chamado “saudade” em minha passarada, nem sabia o que era esse sentimento. eu era feliz!, e não sabia que existia uma palavra em dinamarquês que faz essa magia.

Deixe um comentário