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Últimas atualizações


“Não estar morto não é estar vivo”

“NÃO ESTAR MORTO NÃO É ESTAR VIVO” Publicado originalmente em O Duque. O título faz todo o sentido. Aliás, o aforismo não é meu; é de e. e. cummings — escreve-se assim mesmo, em minúsculas —, poeta, dramaturgo, roteirista e pintor norte-americano que, apesar de não ter tido, à época, o reconhecimento da crítica, teve…

Hipertexto e “As Coisas de João Flores”

Hipertexto e “As Coisas de João Flores” (ou Da importância no arco-íris aprisionado em uma bolha de sabão) Publicado originalmente em O Duque. Dia desses, recebi um convite muito bacana para tomar uma cerveja com o Ademir Demarchi e o Zé Flauzino. Já conhecia Flauzino; Demarchi, só pelos textos e poemas. Maringá, noite curitibana e…

ANA C.

ANA C. Publicado originalmente em O Duque. “Well I’m gonna show you baby that a woman can be tough” (Janis Joplin) Acordo com essa música da Janis na cabeça. Engulo um café de hotel, morno. Detesto café morno. Sei, sei… já estou atrasado e o trânsito de São Paulo, com certeza, não irá me ajudar…

Una poesia pra Allá de muito exquisita

Una poesia pra Allá de muito exquisita Publicado originalmente em O Duque. Só para ambientar a coluna, peço que leiam este soneto: burguesa patusca light ciudade morena el fuego de la palavra vá a incendiar tua frieza ninguém consigue comprar a sabedoria alegria belleza vas a aprender agora com cuanto esperma se hace um buen…

Ars poetica

Ars poetica Publicado originalmente em O Duque. Na capa do Caderno G, do jornal Gazeta do Povo, uma reportagem sobre o lançamento de dois livros de poemas de um autor curitibano, Fernando Koproski, um jovem veterano poeta, tradutor e letrista. Até aí, tudo bem; é bacana ver um diário com tamanha relevância dar uma força…

A caixinha mágica e a tradução de poemas

A caixinha mágica e a tradução de poemas Publicado originalmente em O Duque. Gosto de traduzir poemas! Alguns do inglês, alguns do espanhol. Traduzir um poema tem o mesmo gosto de resolver o segredo de uma daquelas engenhocas vendidas por ambulantes nas praias do Nordeste, aquelas do tipo caixinha mágica; a gente olha, coça a…

Pílulas azuis e vermelhas e três poetas do Paraná

Pílulas azuis e vermelhas e três poetas do Paraná Publicado originalmente em O Duque. “Não sou pessimista, sou um otimista informado!” Li este aforismo num texto do Cristóvão Tezza; não procurei no Google para saber se o dito seria uma paráfrase de outro escritor. Sem o oráculo, fica o crédito para o Cristóvão. É que…

Três poetas, quatro estradas e vários caminhos

Três poetas, quatro estradas e vários caminhos Originalmente publicado em O Duque. A vida é uma viagem! Sei que este é um velho clichê usado por letristas de música, poetas ou, algumas vezes, em cartões que acompanham flores; tão clichê quanto aquele que diz que o que importa é a viagem em si e não…

A fôrma e o bolo, a forma e o poema

A fôrma e o bolo, a forma e o poema Publicada originalmente em O Duque.   Na sala de embarque lotada do aeroporto, voo atrasado, a passear por vários sites numa internet lenta, deparei-me com o blog “Amigo de Montaigne”. Particularmente, a seguinte passagem, parafraseada: Émile Faguet, escritor e filósofo francês do século XIX, publicou…

Edward James

Edward James, 1907–1984 Publicada originalmente no Jornal Cândido Dia desses, um sábado, eu estava meio cansado da vida, com uma preguiça daquelas que assola meio país depois do almoço, sentei para brincar de zapear a TV (se é que existe este verbo) e, ao mesmo tempo, meditar um pouco — um eufemismo para “pensar na…

Hoje o mar está calmo

Hoje o mar está calmo. Penso que é um sinal que tu me mandas, Uma nova pele sobre os mesmos ossos Costurada pela luz turquesa da manhã. Eu te faço um colar de gotas d’água Para ficares perfumada de mar, Enquanto dormes com sereias Entre as taças de cristal da festa de ontem. As nuvens…

Talismãs

Você está certa! Foi divertido me acostumar com os seus trejeitos e seus valiosos talismãs guardados na bolsa: Uma moeda japonesa com um quadrado vazado, uma medalha da Capela da Medalha Milagrosa e aquela pedra verde que você chamava de Magnesita. Você ainda chora em comerciais de TV? Com cebola cortada? Com poemas medíocres sobre…

E por que a gente não dirige até o Uruguai?

E por que a gente não dirige até o Uruguai? Aqui tem tudo o que precisa para seguir viagem. Você pega a primeira parte que é mais cansativa, depois eu me encarrego da direção; aí, você pode dar uma cochilada. Ouvi dizer, as frutas do Uruguai são deliciosas… E eu sempre quis conhecer os pampas,…

Quando o amor é um beijo

Para Gabriela …eu levo o seu coração(eu o levo dentro do meu coração)eu nunca estou sem ele… e. e. cummings Quando o amor é um beijo Ou uma palavra Que me assombra o dia inteiro, Saída dos versos de algum poeta morto; Quando o amor é um sonho Ou algo mais denso do que o…

Sinto que alguém nos espia

I Sinto que alguém nos espia… E não adianta fechar o dossel e sussurrar palavras de desencanto – nós não sabemos o que falamos e, indiferente, nossa voz persiste sem substância. Talvez algum medo comum tenha conseguido nos colocar juntos neste lugar incomum e improvável. — A homilia, hoje, foi esquisita e não me tocou,…

Ataque parnasiano à la José Albano

Não faz diferença entre morte e vida Quando se leva, verdadeiramente, Essa lembrança, essa dor reprimida No corpo todo, que só a alma sente. Tanto padecer e penas contidas, Mil torturas; por fim, vem a semente Da esperança, que dorme entorpecida, Abranda o choro e chama o sonho ausente. Há males perpétuos, mas há feridas…

No ar morno e úmido que exsuda do asfalto

No ar morno e úmido que exsuda do asfalto e dos pátios cimentados desta numerosa cidade e seus arrabaldes, a luz reluta em quebrar-se em cores para cicatrizar tantos lugares inúteis. O céu é uma espada cinza que paira sobre as cabeças — desoladas auroras — esquinas, supermercados, casas e igrejas, subúrbios e puteiros que…

Juro que era sem querer

Juro que era sem querer quando eu ignorava a sua companhia, “Não tenho tempo!” — era meu subterfúgio. Falei muito, ouvi pouco; lutei as batalhas vencíveis, e as invencíveis ainda me chamam pelo meu nome. Preferi o poente ao nascente; a solidão à multidão; preferi a poesia à realidade; o mar à montanha. Ainda assim,…

Se, um dia desses, você encontrar Buda

Se, um dia desses, você encontrar Buda num fim de tarde, pergunte a ele se eu devo tomar Coca-Cola. Anote a resposta recebida (você sabe que vai esquecer, sua memória é igual à minha!) porque todas as palavras do sutra serão importantes; palavras são assim. Cuide, não tente solucionar o enigma. Buda é igual à…

A Virgem responde ao Anjo anunciador

Não preciso que fales mais, Gabriel, preciso que cantes. Então, canta para eu sorrir, mas a canção do lírio e do alecrim; aquela que me dá uma tristeza sentida e que me deixa o peito aflito, não canta. Canta, sim, a canção do homem, do meu Menino, a canção do meu destino. Sabia, mesmo antes…

Há muita coisa acontecendo

I – Andante Há muita coisa acontecendo enquanto eu tomo esse café quente. À minha volta, dois distintos discutem, mimetizando o mundo que se pulveriza em opiniões. As palavras podem confundir mais do que relatar ou podem transmitir a experiência contida no próprio acontecimento, num contínuo acúmulo de duplos sentidos. À minha volta, a crueldade…

Ideia tosca

Eu não sou o seu pão! Você tem de largar essa ideia tosca em qualquer lixeira ou jogá-la, inteira, pela janela do carro. Ouça uma ária! (Eu gosto de “Ombra Mai Fu”) Isso vai lhe ajudar a se conformar… Sente-se no escuro, fique invisível enquanto você toma uma cerveja. Largue essa ideia no banho, jogue-a…

Hoje, não me peça um verso fácil

Hoje, não me peça um verso fácil, desses de entendimento à primeira vista. E mesmo se você insistir, hoje, também, não lhe darei versos para ferir, nem para acalmar ninguém, nem a você mesmo. Entenda, um poema não deve ser, mas significar! O que, agora, é um sufoco em meu peito, tem de virar um…

A metade e meia

Sou fluente no silêncio; um vício que cultivo desde que vivo para poder abraçar o tempo: há muitos dias encalacrados em mim. As palavras, desnecessárias e lentas, tornam-me num deserto de imagens e não conseguem traduzir nem meia metade do que sou. A outra metade e meia, afogada, eu mesmo não sei se me afloraria…

Com um papel manteiga vermelho

Com um papel manteiga vermelho, sustentado por duas varetas de bambu, alguma cola e engenharia, eu fiz uma pipa para o meu menino; assustadoramente, ela voou; ganhou o céu com uma linha 10 no cabresto. Arte povera! Penso. Um instante de poesia feito uma carriola vermelha na chuva. Uma cena para desentender o presente, com…

Então, nós, os pusilânimes

Então, nós, os pusilânimes que adoramos nossa casa cheirosinha e arrumada, os passeios adoráveis do fim de tarde, o cafezinho que quebra nossa rotina e o chope do fim de semana; nós mesmos, os mesmos covardes que lemos a página de esportes, fazemos selfies e as publicamos em toda mídia social e depois compartilhamos vídeos…

The corpse of Benito Mussolini, ants & spiders

The corpse of Benito Mussolini was hung upside down nearby a gas station in Milano. Fascism was supposed to be dead within that body. What on Earth is going on? Our lives are at the mercy of near misses. What on Earth is going on? I have an answer: Spiders and humans hunt their own…

Para

Para o seu cansaço Para a sua preguiça Para o seu desencanto Para encher linguiça Para passar o tempo Para o seu desespero Para contemporizar Para sentir o tempero Para parar e pensar Para a sua procura Para parar por parar Para parar a loucura Para um paralelepípedo Para uma luz queimada Para honrar um…

Gazal da procrastinação

Há quantas anda aquela tua viagem para o México? Tu não querias passar o Dia dos Mortos no México? Huevos rancheros y mezcal com verme no desayuno; Tu vais comer muita tortilha com pimenta no México. Melhor ainda, tu molhas os pés nas águas de Acapulco Ou de Cancún, as águas da cor mais turquesa…

Os ipês têm uma canção

Os ipês têm uma canção peculiar quando o vento atravessa seus galhos e suas folhas, como fosse uma zamponha desafinada; um som esganiçado, rouco, que se parece com um grito abafado de socorro — repetidamente clamado — à procura de um ouvido atento. Eu me lembro, era criança, quando ouvi o grito de um cachorro…

Deslembranças

I quando eu era velho, eu já não gostava mais de passarinhos. eu penso que eu achava que eram todos iguais. menos o urubu, que esse é doidinho por um defunto; menos o quero-quero, que esse a gente só vê na grama correndo atrás de bicicleta; e menos a águia, que essa a gente só…

A noite desabou sobre mim

A noite desabou sobre mim E não tenho nada para te oferecer. Senta! Na cabeceira é melhor, Não terás que pagar a conta. Além disso, aviso-te: Poesia é só o que tenho para servir. Serve-te de água limpa — Para beberes e para te banhar. Meu leito está pronto. Toma o lado direito, que é…

Then that weird little lady threw me this

Then that weird little lady threw me this: “You’re a poet, ain’t you?” I felt an obnoxious feeling with this punch. So, I took a long breath and said: “Well, I’m supposed to.” And after a quantum of silence, I caused to answer: “I like to play with words and their meanings, And I play…

Maritacas filhas da puta!

As mil maritacas Fazem tanto escarcéu quanto Faz um bate-estacas. Eu, morto de sono, digo: — Nem te ligo, pé de figo. Mas as desgramadas, Ligeiras, conversadeiras, Nessa madrugada Me chamam, em zombaria: — Acorda! Nasceu o dia.

Eis-me aqui de novo nesta estação

Eis-me aqui de novo nesta estação tentando pegar o trem do meu ofício ou arte sombria. Fico aqui à espera, enquanto trabalho minerando palavras e decantando motivos. Não quero viagens curtas (nessas, quando chego ao fim, percebo que perdi o melhor do trem e do caminho). Contudo, é um dia bom! Porque não tenho destino…

Há muito que a terra me conhece!

Há muito que a terra me conhece! Mas não sou tão velho assim, sei que ainda sei descascar uma romã para não comer aquele amargo que comem os apressados; com a vantagem de saber que são mesmo as estrelas — com a rapidez de Mercúrio — que cruzam por entre as nuvens. Há muito que…

No princípio

No princípio nada tinha começo, nada tinha fim O céu que olhávamos era negro Da mesma cor de nossas memórias inexistentes O espaço-tempo não nos vestia com conforto E quando sentimos o hálito quente do Sopro em nossa face Soubemos que a luz começara o seu trajeto para o infinito e que o fim já…

Vamos falar da quietude que só nós conhecemos?

Vamos falar da quietude que só nós conhecemos?! Há muito, ao fim do dia, nós nos sentamos, mas não nos falamos. Sei, ali, você já sabia; agora, que eu sou mais velho que você, é que entendi: “O que era seu não é meu, meu pai! Nem quero, nem sou herdeiro.” Naquela quietude, meus pensamentos…

Um calafrio me bateu bem no meio da nuca

Um calafrio me bateu bem no meio da nuca quando o barulho de alguém que limpava a garganta ecoou, tarde da noite, pela janela do quarto. Acordei e, pela fresta da cortina, vi o céu vestido de um azul marinho profundo — quase negro de cores e sons. Vagamente, lembrei-me que o dia já acabara…

As folhas caídas, ainda verdes

As folhas caídas, ainda verdes e esticadas num chão seco de estio, são surdas ao barulho caótico e exaustivo que circunda os pensamentos do homem que, pacientemente, espera a lua cruzar o galho esguio da mangueira para deixar de sonhar e ir dormir. Enquanto a lua segue sua rota conhecida, num outono onde a chuva…

Não existe uma bala com o meu número

Não existe uma bala com o meu número e não existe pena por eu tentar o que quiser, mas não intento escapar do Anjo que eu vejo que me vê. Sinto que não há valia nessa intenção e tentativa. Eu penso assim, mesmo com dúvidas, porque mudo o meu futuro a cada minuto, sou errático,…

Já vi pinguim, já vi cometa

Já vi pinguim, já vi cometa, já vi tristeza. Acho que já vi assombração e, quando criança, eu tinha a beleza que têm todas as crianças de não gostar de cemitérios e seus túmulos desalinhados, mesmo quando limpos e pintados para o dois de novembro. Grosso modo, repenso o tempo: Passam os segundos, passam os…

Nós nos sentamos à beira do lago

Nós nos sentamos à beira do lago Numa manhã de outono. Tínhamos os cenhos enrugados Pelo brilho dos raios do sol. “Está tão lindo quanto eu imaginava”. Só ouvi, sem consentimento. “Prevejo que será uma longa jornada desde este abril”. Continuou, serenamente. Enquanto o cheiro da água marrom barrenta Inundava minhas narinas, Olhei para o…

Amor é uma palavra forte

Hoje as árvores inclinaram-se mais para perto de nós como se o vento estivesse a nosso favor e o dia parecesse um grande lugar onde poderíamos nos ajeitar em qualquer canto. Eu te digo: “Somos abençoados por sermos pequenos!” Tu me olhas com o mesmo olhar do nosso primeiro abraço de entrega e diz: “Amor…

Isso não é humano

Você não tem de assistir a nenhum sacrifício humano em full HD ou 4K em todos os canais da TV. Isso não é humano; humana é a morte que foi inventada pelo homem, e a tapeçaria, caríssima, com uma nódoa enorme de sangue auscultada de fio a pavio pela pífia polícia forense em busca de…

Quando o mundo acabar

Quando o mundo acabar, Um bem-te-vi estará voando alto, As notícias já estarão escritas no jornal E o andarilho estará no acostamento, sentado. Um jogo de futebol estará terminando, Outro começando numa outra várzea, Quando o mundo acabar. O pescador estará se equilibrando no barco; Um sushiman estará afiando sua faca, E o peixe morto…

Até pensei em mudar de cidade

Até pensei em mudar de cidade, outros ares, outras esquinas, outros bares, outras cantinas. Colocar todos os meus bens numa trouxa, minha viola num saco e achar outra praia que me queira. Aqui, por toda rua que passo, vejo meus passos, minhas ruínas; vejo tantos anos desperdiçados, gastos, destruídos. Por onde tudo me foi errado,…

Aí, colocaram-no em um caixão de madeira

Aí, colocaram-no em um caixão de madeira Polido, brilhante, do tamanho certo Que, por certo, ele não aprovaria. Claro, ele sabia de tudo! Não saberia sobre caixões?! E nós sabíamos que ele sabia de tudo; Contudo, sempre foi bom contrariá-lo. E não ia ser agora, na última festa, Que ele ia dar a última palavra,…

Timaço

Gasosa, no gol; Tziu, Batata, Nenê e Carlão; Aquiles, Capacete e Rafa; Bráulio, Remela e Gilmar. Timaço! Campeão mundial do Colégio São José. Gasosa morreu num acidente; Tziu tá preso; Batata é garçom; Nenê cuida de três filhos; Carlão é crítico de cinema; Aquiles foi dono de zona na Bahia; Capacete virou médico doutor; Rafa…

Quando o mar recuou mostrando mais a praia

Quando o mar recuou mostrando mais a praia, O poente acusava-se por trás da Serra do Mar Na simplicidade pontual que o cotidiano Daquela costa voltada para o oriente oferece. Despedimo-nos nesse entardecer Com a minha certeza de que se eu morresse Dali a cinco minutos ou se toda a escuridão Chovesse do céu e…

Porta-retratos

Ele segue a fumaça que sai da chaminé da torrefadora de café com seus olhos de nada para fazer. Lentamente, a fumaça se torce, ascende e se espalha num céu cinzento e rajado; sua mente absorta viaja na mesma velocidade daquela fumaça, acendendo efêmeros flashes sem relevância e sem conexão com o presente; flashes de…

Fecharam a entrada da mata que havia perto de casa

Fecharam a entrada da mata que havia perto de casa. Faz tanto tempo que eu nem conto mais quanto. — Cuida: o passado controla o presente e o futuro — Mesmo assim, eu me lembro ainda: Lembro da clareira, logo depois do muro, onde moravam quatro pés de figo e um pé de mexerica cheirosa….

Amor, tirano!

Amor, tirano! Mata-me sem razão, mata-me depressa ou ao contrário, degusta cada pio de meus lábios — feito promessa prometida que não se cumpriu. E grava, em tua retina, a minha cara de horror ao contemplar teu gozo e tua frieza, doces. Depois, esquece de mim, para me dar minha segunda morte.

O cachorro sumido

Já sonhei que a noite tava que nem dia e o dia tava que nem noite, unidos, como as lâminas de uma tesoura, e separados, feito as lâminas de uma tesoura. Já sonhei que o tempo é um rio rápido, também já sonhei que o tempo é um perfume derramado evaporando-se. E ainda são só…

Desenterro um agosto amargo

Desenterro um agosto amargo Num fevereiro seco de nuvens e sentimentos. — Pelo barulho opaco e risadas presas nas paredes, Os meninos não brincam mais dentro de casa. Meus ossos doem, meu coração descompassa. Não encontro o caminho de volta no tempo, As migalhas que joguei como rastro São lembranças comidas pelos pássaros. Desenterro um…

A fotografia na caixa de lembranças

Para Tânia e Aníbal As lembranças me caem com o peso dos dias. Descubro que é difícil distinguir entre o que você quer que aconteça e o que provavelmente vai acontecer. Naquela foto eu olhava para o mar e só via a tua face contemplando o horizonte… Tu sabias que estaríamos aqui? Depois de tantos…

Antes da conclusão

Pelo apito, a água do chá está pronta! A infusão de hibisco e hortelã descansa o tempo certo. À mesa, uma xícara para fazer a cerimônia minimalista; na borda do pires, um biscoito amanteigado – doce o suficiente para tirar o desgosto e o gosto do pó da terra. Ouve-se o som da colher a…

Após a conclusão

Eu procuro um poema entalado entre meus sonhos; triste, o suficiente, alegre, o necessário; tricotado de palavras garimpadas em minas de noites de desespero. Um poema lírico que incomode os entendidos; lúcido, que me incomode. Sem carne, sem sangue; agridoce, para ser engolido feito uma dose de cachaça. Um poema para vestir, não para agasalhar….

A preponderância do pequeno

Para Betina No dia em que perdeste o teu anel, tu disfarçavas a dor porque esfinge és. Eu te decifrei num milésimo de segundo! Depois, decifrei, antes de ti, que naquele dia outras dores aconteciam ao mesmo tempo: Vi bem-te-vis ressabiados bebendo na poça d’água barrenta e vi as flores amarelas dos ipês caídas no…

A verdade interior

Eu não existia antes de você, mesmo eu sendo mais velho. Não existindo, eu não tivera passado. – O tempo necessita da existência para se medir – Aí, fez-se você! Eu pude, enfim, nascer. Nasci olhando para o céu, cofiando o cabelo em ondas, sem choro, sem dor, sem cordão. Lembro bem daquela sensação que…

A limitação

Dos meus pensamentos, Um só não voa: O dos meus tormentos, Que em minh’alma ecoa.

A dissolução

Por puro mistério, Deus e Seu filho único desceram à Terra numa Sexta-Feira Santa. Queriam seguir a procissão do Cristo Morto. Levaram, como toda a gente presente, uma vela; E, para protegê-la do vento noturno, meteram-na no gargalo de meia garrafa pet vazia. Embrenharam-se no meio dos crentes e, humildemente, repetiram as rezas e os…

O contentamento

Arrastei a cadeira velha – pátina, madeira e palha – com um barulho gemido seco, contínuo e dissonante a inundar os meus ouvidos. Atravessei a sala e o corredor a carregar aquele gemido que não importava a ninguém, nem a mim. Estrategicamente, coloquei-a na varanda – não na sombra, como pedia o conforto, mas donde…

A suavidade

Para Marina What can I do? What can I say? You became a butterfly, now! How long can I still be a wall, Protecting you from the chilly winds? I know, I’ll be here forever Settled in this very foundation, Just waiting for you. Yet I’m not a smile, not here, not this moment. I’m…

O viajante

Exiled in my own homeland I’m as quite living in a foreign land, Away from those known stars. What is this double rainbow formed Within an empty sky? I almost can raise my hand and reach them. A vision that kept me cheerful and hoping. Got the work done. That’s enough, for now. An empty…

A abundância

Viver a vida toda num único momento, numa singularidade… Mas não explodir! Uma jornada sem termo e sem tempo para nos sentirmos imortais, tais como deuses indiferentes: Contivemo-nos em nós mesmos e pressentimos o acaso e a fortuna a cada microssegundo, a cada manhã pálida, a cada tarde calcinada, até irromper a madrugada com seu…

O transitório

Não! Não atrapalhe o sono e os sonhos dessa crisálida! Deixe-a tranquila, ela ainda não está totalmente pronta. Ela é como uma noiva em véspera do casamento, preparando-se com todo o cuidado e encanto, contando o passar das horas, imaginando o badalar dos sinos da catedral que anunciará sua entrada triunfal antes do primeiro ré…

O desenvolvimento

Morrer está no dicionário: verbo. Intransitivo, ninguém o conjuga numa conversa – Não na primeira pessoa do pretérito perfeito do indicativo. Atravesso a rua deserta, sem olhar para lado nenhum, E deixo o meu rastro invisível no asfalto. Coro: C’est la vie! C’est la vie! Não passo por debaixo de escadas, Bato na madeira (três…

A quietude

Você desfolha uma margarida imaginando um malmequer e conta baixinho: “Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer…” Eu, curioso, pergunto a resposta, mas você não responde. Eco: “Onde…” Depois, colhe rosas no jardim para enfeitar a sala e o quarto e canta baixinho: “As rosas não falam, simplesmente exalam o…

O incitar

O penúltimo arcanjo desce do céu E entrega um ultimato a todos os povos: Escutem todos os homens: velhos e novos, Os que usam quipá, os que usam solidéu, Aquelas que não creem e as que usam véu. Seu tempo é curto! E com penar anuncio Que toda sua incredulidade, fastio E atitudes carregadas de…

O caldeirão

Silêncio. P: “Alguém me diga se isso é arte…” C: “Tudo é arte” T: “Tudo?” A: “Tudo, tudo?” G: “Não” T: “Não é arte ou não é tudo?” P: “Não é tudo” Isso não é um poema. Silêncio.

A revolução

Por onde ando, doidivanas, encontro quilos e quilos de palavras soltas fugidias de um jornal qualquer. Livres, juntam-se aleatoriamente e não fazem sentido nenhum. Mesmo assim, sempre acho que há algum nexo escondido no meio de toda a bagunça. Afinal, pode ser que essas travessas vieram de algum oráculo, vai saber!? Vai saber, é uma…

O poço

De uma margem à outra, há um rio. No céu-espaço onde supõe-se nada, há as estrelas escondidas pelo brilho do sol. Vaza, por sobre as duas margens, a imagem da lua minguante, tímida, distante e opaca, adornando o espaço deixado pelas cumulus. Fluem o tempo e as águas do rio. Não há ciclo. A única…

A opressão

Reescrevo o final de um poema – porcamente escrito – porque perdi a fé em happy endings desde que um menino-bomba se explodiu em meio a um casamento em Gaziantep. É novembro neste hemisfério sul, deveria ser junho! É quando se espera que meninos explodam bombinhas no dia do santo casamenteiro e transgridam por soltar…

A ascensão

O papel é a pedra é a tela! A tela espera pelo pincel e as cores mix da aquarela. A pedra flerta com o cinzel. Cada soneto, cada rondel, cada palavra, cada estela; o papel é a pedra é a tela! A tela espera pelo pincel. Assim o poeta proa sua vela: faz num dia…

A reunião

Quando não sobrar nenhuma gota de vinho E todas as taças estiverem vazias E todas as garrafas estiverem secas E todas as línguas estiverem roxas, Eu começarei a declamar, de memória, Do not go gentle into that good night. Depois, no mesmo fôlego e quase trôpego, Dançarei recitando: “Eu faço versos como quem chora De…

O encontro

Eu me lembro de que a noite estava escura, Não pela falta da lua, mas pela chuva e neblina. Dessas chuvas insistentes que não cessam nunca. Chuvas de início do outono: frias e sem aviso. Eu me lembro de que a estrada estava lisa e tensa. A visão embotada já me pedira uma parada fazia…

A determinação

Suas mãos, outrora macias como a brisa, Vergam as rédeas pesadas da parelha desembestada Que é sua vida desgarrada da realidade que um dia planejara. Sua voz, uma vez suave como a noite, Esgoela-se num grito hitchcockiano, Emprestando força extra às mãos marcadas pela tração do couro. Mas sua alma continua leve como um sonho…

O acréscimo

Nasceu a primeira flor extraterrestre: uma zínia! Plantada e cuidada por um astronauta durante sua estadia na estação espacial ISS. O argonauta jardineiro, vestido a caráter, cuida de sua planta como fosse seu bonsai: abre a escotilha e caminha no espaço-jardim com um regador desses de lata, ancinho no ombro e tesoura de poda no…

A perda

No dia em que partistes, colibri, Foi quando jurei amor eterno. Da felicidade, mãos abri: Só uma estação: inverno! Só um tempo: futuro, Só um abrigo: relento. E tu eras uma luz no escuro Dos meus pensamentos.

A liberação

Tava eu quietim, quietim, coçando meus micuim, quando, do nada, um querubim de cabelo pixaim, me disse assim: – Eita, moço que me dá trabalho! – Eita, moço que não me dá descanso! Ouvi, tintim por tintim, e respondi bem baixim: – Agradecido por quebrar meus galhos. – Agradecido por impelir meu balanço. O anjo…

A obstrução

Beat, boto um chapéu desses de pescador; nem queria me disfarçar ou me esconder do sol. Calço um chapéu só para calçar. Visto um chapéu só para vestir. Uma pomba voa sobre mim; um monte de bosta sobre o chapéu, um monte de bosta sob o chapéu.

A oposição

UM NÃO NÃO ME DÓI MAIS QUE UM SIM QUE NÃO É SINCERO!

A família

Ela chega com uma sacola de papel de supermercado E eu deitado no sofá, só de cueca. Não movi nenhum músculo da face para recebê-la. Quatro franceses, duzentos gramas de presunto e mandiopã. Quem quer comer mandiopã nesses tempos?! Assim era ela: diferente! Correu logo para a cozinha, abrindo todas as portas do armário. “Benhê,…

O obscurecimento

Aqui estou eu, numa tarde azul como nunca, me procurando no imenso avarandado, recolhendo minhas memórias e seus gritos para testemunhar o fim do mundo. Dou falta de algumas delas pela solidão do silêncio. (Perder é um ato não ato, porque quando se perde não se consente, nem se dá conta até que se necessite.)…

O progresso

Quando uma nave viaja bilhões de quilômetros Para tirar fotos do último planeta do sistema solar, Eu me fecho em mim mesmo e desacredito do homem. The fault, dear Brutus, is not in our stars, But in ourselves, that we are underlings. Boa parte de nosso conhecimento está encapsulado Naquele táxi prata que agora não…

O poder

O tempo tem poderes estranhos de transpor estradas… De trazer das minhas entranhas tuas risadas

A retirada

Guardo no bolso do meu jeans surrado um guardanapo dobrado, já meio amarelo. Ali estão escritas, em caixa alta, as perguntas; as famosas perguntas. E pra ter certeza de não perdê-lo, fiz uma cópia noutro guardanapo e o coloquei na lateral da minha sacola. Não vou perder minha sacola! E sei que não preciso dos…

A duração

Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Carlos Drummond de Andrade e chovia copiosamente. se bem que copiosamente remete a chorar. molhavam-se roupas e sapatos e ruas e carros. um cachorro – desses de borracheiro – nem se importava com o clima, sentou-se sobre as patas traseiras como que…

A atração

Um pesadelo no meio da noite; instintivamente procuro sua mão sob o lençol, aperto-a e, aliviado, volto para o sono. Tinha que ser assim. Exatamente assim. Um beijo na cabeça, não pedido nem esperado enquanto eu leio o jornal. Desconcentro-me e, aliviado, logo volto às notícias. Exatamente assim, tinha que ser. A chuva cai com…

O fogo

Com os olhos semiabertos e ainda borracho por um resto de sono, vejo três raios de luz a invadir a fresta da cortina mal fechada. Três raios de luz para aquecer a parede fria de uma manhã de inverno. Naquele exato instante de indefinição entre sonho e realidade fecho os olhos, mas os três raios…

A correnteza

Não se zangue. Tudo tem seu oposto, como o yin e o yang.   Tire do rosto o cenho franzido e da boca o gosto   de choro contido. Amanhã é amanhã, com outro sentido.   No Quartier Latin ou em Vila Parisi, segure o afã   de sair da crise. Entenda o tal do…

O império dos fatos

A noite desabou sobre a cidade. Num apartamento vazio de gente Nada parece ter mudado de cor. Não há solidão maior. À luz do dia, as personagens dos quadros Pendurados e perfeitamente alinhados, Conversaram sobre o som do martelo na parede; Agora, na escuridão da noite, jogam canastra Sob a luz impressionista de uma cópia…

O alimento

Na feira das saudades todo mundo vai. Não tem dia, não tem hora. Todo o mundo vai… um dia. Na feira das saudades tem pastel de alívio, Tem baciada de melancolia, Maços de esperança e pés de vazio n’alma. Tem dúzias de momentos, quilos de amigos; Retalhos de distâncias e compotas de parece que foi…

O poder do grande

A todo o meu amor, foste indiferente; enquanto eu dormia sobre teus pés, tu tinhas as mãos sobre o mundo. De todo o meu amor, não foste vigilante à minha partida. Agora, durmo em meus braços, volto, aceno e me lanço. E então, de todo o meu desamor, agora tens atenção; ao fim, torno-me água,…

A inocência

A madrugada sempre me traz novos velhos amigos, Os menos improváveis, como sói ocorrer – Os cachorros e a lua são rotineiros, Mas há as putas recém-chegadas, os bêbados E os que se pensam músicos de botequim. Eles sempre têm uma história diferente para contar. Sempre sou todo ouvidos… Porque, dia desses, Já fui todos…

O retorno

Para Theo Quando eu era moleque novinho eu achava meu pai o homem mais bonito; seu rosto com o cheiro azul turquesa da Aqua Velva foi o que me deu o aroma do gosto de infância. Hoje, crescido e senhor do meu fado, volto a percorrer o inverso desse caminho – já sem vestígio de…

A desintegração

Esses mesmos pés com que tu me pisaste, com que me chutaste qual bicho morto, seguiram meus passos por toda parte, por todos os mares e para qualquer porto. Tua boca, que me cuspiste o rosto, que me acusaste como réu confesso; bebeu da minha saliva e do meu gosto, jurou-me paixão em loucos acessos….

A beleza

Não sei se foi o acaso ou a escuridão daquela noite que fez a lua cheia ficar mais cheia. De tão imensa, vazou-se seu clarão em sete cores para inundar todo o branco dos teus olhos. Não sei quem era mais bonita: Tu ou a lua cheia… Sei que amanhã, quando a lua estiver opaca,…

A mordida

Ela tinha uma marca de nascença bem na nuca que eu adorava morder, menos pelo carinho e mais pelos seus pelos eriçados. Ela tinha o dedinho do pé encavalado que eu adorava morder, menos pelo carinho e mais pelos contorces de cócegas. Ela tinha mil outros defeitos que eu adorava morder, menos pelo carinho e…

A contemplação

Eis-me acordado com as luzes acesas. Olhos estatelados, pois foi à luz do dia que eu me deitei e encostei a cabeça no travesseiro de pedra. Minhas pupilas erraram através de estradas desprovidas de mapa num mundo grandioso e desvalido. E vi, nesse dia transparente e febril, tudo de cabeça para baixo. Entre nuvens esticadas…

A aproximação

Pequenos retalhos de pele velha, finos como escamas de cebola, descolam-se de meu corpo neste exato momento. A roda da fortuna e suas fiandeiras me espreitam de rabo de olho. Procuro ser simpático com as moiras. Elas me retribuem e me sorriem. Sou um desaprendiz! Esses anos todos me debato na gaiola que é esse…

A reação

Andante Moderato Neste país, imensidão onde vivo, onde meus pés, em suas costas, salgam-se no Atlântico, onde, em suas fronteiras secas, o português é atalaia atento que separa nossa latinidade e nos sentencia à solitude. Neste país múltiplo de múltiplos países onde vejo, onde vejo as Três Marias e vejo Antares – a dama de…

O seguir

– Quem me conduz por essa escuridão sem tamanho e sem tempo para acabar? Coro: “A esperança é o teu Virgílio.” – Até quando, esta minha sede infinita e estes meus lábios secos e rachados? Coro: “Aqui não há água, mas apenas rocha.” – Estou sozinho? Quem sussurra às minhas costas escondendo-se dentro do breu?…

O entusiasmo

O avião passa acima de minha cabeça. Para onde vai?! Não me interessa, não é o meu destino. Hoje não tenho pressa; hoje não tenho compromisso. O avião passou e eu ainda no segundo passo. Agora, caminho devagar. Devagar se vai perto; (perto não é destino, perto não é incerto). Hoje não quero compromisso. O…

A humildade

Num domingo de manhã, as últimas brisas quentes de verão encanam-se pelas ruas estreitas. Estreitas e desertas de vida e automóveis. Eu engulo aquele lufo morno enquanto caminho só. O sino dobra, esgoelando-se num único tom, e quebra a monotonia do silêncio; bate pontual como um despertador, alertando-me para a missa que está para começar….

A grande força

O tempo é um véu que nos encobre; Todos, sem exceção, têm sua quota. (Tal como o ar – do qual a vida brota) Não existe um gênero mais nobre. É dado para o rico e para o pobre, Para o experto e para o idiota, De uso irrestrito e sem volta, Só quando finda…

A fraternidade

“Como é o azul?” O cego me pergunta. “É lindo! Em todos os seus tons”, digo. Ele me faz uma cara de cego. “Quero dizer, o azul do céu e o da calcinha são lindos.” Ainda cara de cego… “Claro, cada tom no seu devido momento…”, explico. “Tem calcinha azul?!”, ouço. “Claro!”, falo de pronto….

A estagnação

Minha raiva tem o cheiro do Rio Tietê [na altura da Ponte do Limão. Minha alegria tem o cheiro da chuva [molhando a terra roxa. Minha tristeza tem o cheiro da vela [queimando no cruzeiro do cemitério. Minha saudade tem o cheiro de mexerica [impregnado nas mãos. E meu amor não tem cheiro: Tem o…

A paz

Cansada de pensar, uma mulher levou seus pensamentos para conhecer o mar. Sentou-se na areia, olhando o horizonte bem na divisa onde a onda morre: de um lado, areia dourada e quente, do outro, cinza e fria pela água salgada. O sol tímido de maio já não atraía hordas, e o Atlântico, naquele dia, era…

A conduta

Economize seus tostões, seus cobres, seus milhões. Junte sua prata, seus tips, suas ações blue chips. Encha de moedas o porco. Guarde tudo, tudo é pouco. E curta, se puder, avarento: A vida, em cada momento. Aí, leve com você, defunto frio, nada, nadica que você pariu!

O poder do pequeno

Ganhei um netsuke: um Buda risonho. Vou colocá-lo em cima do aparador de madeira, logo na entrada de casa. Quem entrar pela porta da frente terá que passar por ele. Mesmo sendo minúsculo, do tamanho de um netsuke, não dará para evitá-lo: o gordo estará lá, de onde ele haverá de dar ao visitante meu…

A união

Amam-se, Bia e Roberto, com o amor morno de primavera; como o café passado às sete que se toma às dez, como a emoção de ver um filme já visto. Amam-se com um amor que nunca foi mar agitado porque, desde sempre, é lago manso. Amor sem abraço sem motivo, sem promessas ou juras de…

O exército

Eu gritava contra o vento e as palavras não chegavam ao seu destino. O vento era forte e uivava sibiloso, tal um Golias contra a minha voz David. Durante a batalha entre voz e vento não achava a luta inglória; não porque David, mas pela ousadia de lutar contra o vento. “Nenhuma funda derrota o…

O conflito

Uma flor no vaso está morta ou morre aos poucos, vegetando no vaso UTI, respirando por aparelhos? Eu lhe digo: “Eu sou o cuitelinho que chora pela flor.” Uma flor no vaso está morta? Sua haste cortada rente ao caule Suga a água como numa transfusão. Eu lhe digo: “Eu sou a abelha que amava…

A espera

No princípio… Mais uma vez, o trem na estação pálida ainda com o banco quente do seu calor e eu aqui frio de saudades e saudades. Nenhuma palavra, nenhum gesto ou soluço. O trem na estação incolor e seus restos; e eu, um deles, simples como um copo vazio. Assim, como no princípio, eu, você…

A inexperiência

Quando fores a um lupanar, aparenta-te rico e terás mil moças a roçar tuas pernas, a beber coquetéis de abacaxi na tua conta e a fazer-te sentir que és o mais bonito, desde sempre – desde que tua mãe isso mesmo te dizia. Lá, é melhor pareceres afortunado; aí, em qualquer deles, verás que a…

A dificuldade inicial

Não vá sair por aí a procurar qualquer nexo nos poemas escritos por mão sóbria; tampouco vá imaginar algum sentido nos versos oblíquos destilados de uma mente sã. Porque o poema é bêbedo por natureza. E assim, etéreo e etílico, canta e diz coisas de bêbedos: Às vezes, diz a verdade – que pode até…

O receptivo

E se, de repente, num belo dia ensolarado, de bom grado, você me aceitasse inteiro?! No janeiro escaldante, tal bruta surpresa com certeza me pegaria bem desprevenido. Aí, duvido que eu não ficasse petrificado, mumificado mesmo, sem pensamento ligeiro, num atoleiro de sentimentos; sem defesa. Que proeza você teria conseguido… Despido de tal sorte, fico…

O criativo

O Universo ainda não está totalmente pronto. É fácil perceber: há terras para nascer e há guerras para acontecer; há livros para ler e há amores para amar. O Universo está inacabado. Deus não deve ter descansado no sétimo dia, Ele continua agindo através do tempo. Construindo aqui, destruindo acolá. Um artista zeloso dos detalhes….

ORAÇÃO DO ANJINHO

Para Marina, Betina e Theo Meu anjinho querido, Minha lanterna e vigia, Estou muito agradecido Por me cuidares mais este dia. Meu anjinho companheiro, Peço que veles o meu soninho. E já que és meu escudeiro, Me mostra sempre o bom caminho. Meu anjinho, meu amigo, E não te esqueças, também, De estar amanhã comigo….

Lá fora, As ruas estão tão escuras; As ruas estão tão vazias. Meu amor não sabe, Dorme o sono dos que podem. Lá fora, Os prédios todos tão altos; Os prédios todos tão frios. Meu amor ignora tudo, Sonha os sonhos dos que podem. Lá fora, Um homem caminha só, Iluminado por cores violetas e…

VILANCETE DO ENTERRO

Esta cova em que estás Com palmos medida É a conta menor Que tiraste em vida João Cabral de Mello Neto Não lamenta enquanto A pá de terra te dá um manto Toda a terra tem tesouros Pratas, ouros e manás A terra que te pesa no couro Esta cova em que estás Desde o…

ÓDIO

O ódio dói pelo corpo inteiro E alaga a alma de tão represado. Fosse um santo teria ao certo perdoado: Gestos, palavras e atos traiçoeiros. Que o ódio de ódio se alimenta E cresce, dia a dia, hora a hora. Toma de soslaio, de dentro pra fora, Uma vida para a vingança odienta. Há de…

DEUS EX MACHINA

A procissão segue feito lesma, num passo de rato, por ruas e vielas estreitas. Balança o andor: ora prali, ora pracá. (Quantas promessas são feitas e quantas não serão cumpridas de fato?) A procissão segue. O crente segue feito crente. A procissão serpenteia a praça. Balançam os terços: ora prali, ora pracá. Passarão os males,…

SONETO DA SOLIDÃO

Sabe-se que os pombos das praças lambuzam as estátuas de bronze: Seja Sé, Tiradentes, República, Onze; nenhuma escapa, nenhuma passa. Os velhos sentados nos bancos frios, A marcar o ponto das oito às seis, religiosamente, dia a dia, mês a mês; parecem estátuas, por horas a fio. Um sinal de vida vem somente após A…

ANJO

Para Cahetel E descerá do céu um anjo vingador e guerreiro. — Que te libertará, quando estiveres no cativeiro. Um anjo desses celestiais, com cabelos cacheados. — Que te protegerá, mesmo com teus pecados. Desembainhará sua espada certeira e reluzente. — E dizimará todos aqueles teus oponentes. O anjo tomará a tua mão com sua…

LOTERIA

Randomicamente, a mosca voa e pousa: vidro transparente.

FAREWELL

Meu último poema terá de ser imperfeito! Será, assim, como todos os outros, igual: Inexato, desnecessário e cheio de defeitos; Uma bateia de palavras insossas e sem sal. E de tal maneira será mal-escrito e concebido Que será impossível entendê-lo em uma só leitura. Será apenas um farewell final e quase comovido; Um não epitáfio…

QUATI

Hoje eu estou tão cansado. 
Intransitivamente cansado.
 Explicar é um desperdício de tempo, 
é gastar espaço. 
Cansado e tanta vida me esperando.
 Abro o armário,
 procuro um veneno anticansaço. 
Só encontro algumas fotos.
 (Não me reconheço, nem quero.)

 Deito e decido uma reação: “Sai, cansaço!”
 Aí, me vem a luz: 
“Ah! Tem um quati no…

NORMAL

peça! não me obrigue. algo lhe interessa? peça, não brigue. peça! não me irrite. devagar, sem pressa, peça, não grite. peça! não me apoquente falando à beça, peça diferente. peça! seja especial: jamais me meça, finja que sou normal!

EASY RIDER

Mudei: deixei barba e bigode, cabelo rabo de cavalo, (o cocuruto tá um pouco ralo) mas quem pode, pode! Meio easy-rider, meio kitsch, pus na cabeça uma bandana: (Não! A careca não engana.) Fiquei parecendo Nietzsche! Desconstruí minha imagem: do bom moço, educado e pontual, com carteira assinada e hollerith. Agora o look passa outra…

AQUI JAZZ

Amanhã quando eu morrer e descer a sete palmos, confinado, com carpideiras a me benzer; de nada terá adiantado eu ter sofrido tantos ais.  Na minha missa de sétimo dia nenhum réquiem será ouvido. Aposto que pouca gente iria, só uns poucos amigos queridos que sofreram com meus ais. No esquife fechado e escuro, passados…

AFORISMO CHINÊS

Uma janela aberta, dois olhos fechados, três segundos de bobeira e lá vou eu mundo afora… Minha cabeça, máquina do tempo portátil, viaja sem destino; viaja sem plano nenhum. E todo vento é bom!

REFLEXO NO ESPELHO (EM QUATRO MOVIMENTOS)

I – Adagio Não sou eu aquele na minha frente. (Não se parece comigo, nem de perto) Sou bem mais moço e atraente do que aquele coitado e incerto. Sou bem mais cabeludo e feliz. Um tantico maior e mais magro. Não tenho aquela cicatriz e com aquela roupa não me flagro. Os olhos tristes…

FUMAÇA

Estrangeiro na própria pátria, encosto as costas cansadas na parede fria.   Vai, besta, sai só de camiseta! (Pensa o local quando me vê)   O haze de Curitiba no lusco-fusco, indefectível, tem o gosto bílis do passageiro: Como as formas da fumaça. Como as figuras de nuvem. Como a vida, mesmo centenária.   Vai,…

SEREIA

Eu, Odisseu amarrado ao mastro, esqueci de alertar a nau: — Não me soltem, não me soltem! E, plano falho, sucumbi ao canto da sereia. Não tenho os mil ardis de Odisseu, nem tenho os conselhos de Circe; encantado, joguei-me ao mar. Já cego pela insanidade, nadei. Nadei, para ouvi-la melhor. Lutei, tentando calar as…

1

UM NÃO NÃO ME DÓI MAIS QUE UM SIM QUE NÃO É SINCERO!

PING PONG

Ping, ping, ping! Molhando as telhas velhas… 
I´m almost sleeping!

Saquê

Nega, vamos pruma balada! Qualquer lugar, qualquer programa… Preciso te mostrar, quero ser invejado. Bota aquela calça Saint Tropez e aquele top tomara que caia; se quiseres, bota uma saia, mas deixa a tatoo à mostra. — Quero que todo mundo veja, quero que todo mundo leia — Veste aquele teu sorriso de ironia, (aquele…

PROMESSA!

Não quero mais amar ninguém! Chega de padecer desse mal. Não tem nem mas, nem porém, Basta! É minha decisão final. E que venham chuvas, borrascas, Pedras, desmoronamentos; Que lancem mau-olhado, pragas, Ciclones ou pés de vento; Que me surrem em ruas escuras, Processem-me nas altas cortes, Prometam-me duras agruras. Que nada eu temo, eu…

DIVISÃO DE BENS

Bom-bocado pra mim, bombom pra você. Dividimos o quindim, com o brigadeiro não sei o que fazer.   Olho de sogra?! É seu. O bolo vai pro vizinho. Fique com o vinho e as flores. De todos os dois-amores, não restou um só beijinho!

SONETO DA PARTIDA

Esses mesmos pés que tu me pisaste, que me chutaste como bicho morto, seguiram meus passos por toda parte, por todos mares, para qualquer porto. Tua boca, que me cuspiste o rosto, que me acusaste como réu confesso; bebeu da minha saliva e do meu gosto, jurou-me paixão em loucos acessos. E tuas costas que…

BOLERO

E se tocasse, agora, uma música lenta?! Você saberia o ritmo, os passos? Seguiria meus pés, cairia nos meus braços? Sentiria o pulso forte que me desorienta? Talvez você se deixasse ser conduzida por um bolero de orquestra, uma balada. Ou qualquer canção triste, quase parada, que parasse o tempo com você abstraída. E, neste…

REFLEXO

Vejo meu reflexo Nos seus óculos escuros. Estou um tanto obscuro Nessa imagem sem nexo.   Uma figura resumida, Um eu em miniatura, Uma pobre criatura, Numa lente colorida.   Do outro lado do aro, Refletindo na sua pupila, Sou uma luz que cintila. E aí me fica tudo claro:   Virei uma tatoo na…

POUCA

Beijo sua boca. Me passa pela cabeça: Uma vida é pouca?!

CALOR

Verão nesta cidade é igual cárcere: O ar pesado e quente cobre ruas, lagartos, árvores e gente. Os pulmões e peito sufocam, ardentes. Mesmo assim falta o seu calor. Na cama, o edredom da madrugada não substitui seu corpo, seu perfume, seu hálito e suas mãos roçando a minha perna. É verão, E você deve…

O FIO DA NAVALHA

E todo o amor valerá a pena! Valerá a pena, a cruz, o fardo! Se for vivido, mesmo bastardo, Intensamente, à carga plena. Amar é consumir-se inteiro. (Isto para que a pena valha) É ter na carne o fio da navalha, Sem controle do jogo e do tabuleiro. Porque amar deve ser imperativo! É fazer…

TRÍSTICOS DOS PÉS

Vejo você nua. Deitada, com preguiça e devaneios. E assim, semiacordada, beijo seus pés inteiros: Sola, calcanhar, peito. Pelos vãos dos dedos, enrosco a língua; depois, com jeito, mordo seu tarso veludo com a exata força e proveito. Ali, continuamos mudos. E seus pés são só o começo desse jogo, desse ludo sem regras e…

SEDA

A saia de seda que ela vestia, e voltimeia saía, seduzia mais que se ela estivesse nua. Sabendo provocar, ela permitia, da sua barriga de tábua, que eu avistasse seu umbigo raso: um tweeter com o timbre perfeito, de onde se ouvia: Touch me tiger when I’m close to you wah wah wah wah wah!…

GRUDE

Seu cheiro gruda na minha cabeça feito música de caminhão de gás. É ouvir ou sentir meia vez e zás… não há maneira de que eu me esqueça. Seu cabelo suado gruda na minha pele e vejo seu rosto, pousado no meu peito, a dormir um sono tão sereno e perfeito que quero que este…

NANQUIM

Então tá! Fica assim: É preto no branco, Sulfite e nanquim. Tudo muito franco. Estamos combinados, No fio do bigode! Não vale o certo, Não vale o errado. O resto pode!

UM BEIJO

Só um beijo Cala a boca De quem precisa Falar mais nada!

COTIDIANO

Dia após dia De sua saliva crua Uma gota fria

A COSTURA

“Mau-olhado, braço destroncado!” “O que é que eu costuro?” “Braço destroncado.” “Isso mesmo eu costuro!” Minha’vó costurava doenças e chagas. Sempre tinha fila na sua varanda de tijolo, era a clientela esperando por um consolo: Os pobres coitados com suas dores e pragas. “Costela doída, carne rasgada!” “O que é que eu costuro?” “Carne rasgada.”…

PRAGA

Correndo debaixo da Karluv Most, o Vltava continua lépido e limpo. Espelho para os turistas da ponte, backing vocal para artistas de rua e indiferente para o tempo e a história. As vielas de Praga, essas não! Entre as morenas de olhos azuis e a arquitetura de pasmar, mil desempregados anunciam cabarés, outros mil vendem…

TEMPO, TEMPO

As águas de março agora vêm em janeiro e julho já não é o das mangas compridas. Florescem os ipês de Maringá em fevereiro. Continuam verdes as sibipirunas e alecrins. É a primavera temporã, roxa e amarela. E o tempo de Eclesiastes mantém o sentido. — para cada coisa e para cada gente — A…

SAUDADE

Cadeira vazia: A lembrança de alguém guarda a mobília.

TRAPEZISTA

Entregar-se assim — por inteiro — É caminho só para os fortes. É não se importar com o norte. É confiar! Como faz o romeiro. Que a entrega não é submissa. Não é amarra, tampouco é poita. É, sim, uma liberdade. Afoita Para amar, que é uma premissa. Entregar-se é ser trapezista. Confiar na mão…

ESTOICO, E DAÍ?

Quer pouco: terás tudo. Quer nada: serás livre. Ricardo Reis Todos os relógios têm o meso passo, a mesma pressa, o mesmo sentido. Daí, toda felicidade passa. A areia da ampulheta não se cansa de cair. Só o tempo é preciso. Daí, toda matéria é imprecisa (É imprecisa porque desnecessária) e enjaula — déspota que…

COVA

Economize seus tostões, seus cobres, seus milhões. Junte sua prata, seus tips, suas ações blue chips. Encha de moedas o porco. Guarde tudo, tudo é pouco. E curta, se puder, avarento: A vida, em cada momento. Aí, leve com você, defunto frio, nada, nadica que você pariu!

O GUARDA-SOL

De noite, na praia, um guarda-sol aberto (inútil) espera que o dia raie. Guardado na estante, um Bandeira fechado (inútil) jaz ao lado de Dante.

DÍVIDA

Não lhe quero falar da vida. Não lhe quero dar nada! Não lhe devo nada. Não lhe quero oferecer versos. Não lhe quero dar restos! Não lhe devo nada. Não te quero ter por perto! Não lhe quero dar o incerto. Não lhe devo nada. Não mereça menos!

TAO

Não se zangue. tudo tem seu oposto, como o yin e o yang.   Tire do rosto o cenho franzido e da boca o gosto   de choro contido. Amanhã é amanhã, com outro sentido.   No Quartier Latin ou em Vila Parisi, segure o afã   de sair da crise. Entenda o tal do…

RONDEL DA FOLHA EM BRANCO

O papel é a pedra é a tela! A tela espera pelo pincel e as cores mix da aquarela. A pedra flerta com o cinzel. Cada soneto, cada rondel, cada palavra, cada estela; o papel é a pedra é a tela! A tela espera pelo pincel. Assim o poeta proa sua vela: faz num dia…

O ACASO

Nada é por acaso, nada é por encanto; tudo é de repente e tudo cabe no meu canto.

VELOZ

Ideia que seduz: Só o pensamento é tão veloz quanto a luz.

The end

Honey, I give up on being a poet these days! But I still have my mind at ease… Love poems sound better, they say, in English than in Portuguese.

Frostiano para Cris e Paolo

Adormeci pensando nas suas cores Co quadro que ganhei no meio do peito, Co gosto do café ainda na saliva E apneia de luz e ar rarefeito. Eu poderia não ter tido a chance De ponderar sobre poesia e arte; Números inteiros e cartesianismo, Se é o todo ou se só uma parte. Mas, como…

Vingança

Sabes bem o que te espera, Já podes sentir o fedor Do hálito sombrio da quimera. Riste, locupletaste sem temor, Pois nasceste com este dom, Agora paga a conta sem dor. Desce humildemente o tom, Muda o imperativo de tua voz (E a pose emprestada de bom). Engole a tua cara de feroz, Resigna-te como…

Da janela

Um homem encostado no parapeito da janela Olha o movimento da rua sem foco nenhum. O tempo passa num ritmo diferente do usual, Ele pensa em tudo e em nada ao mesmo tempo. Cada pensar é um hiperlink para uma outra ideia E cada ideia tem o tempo de vida de um microssegundo. As ideias…

Calçadas

Sob a marquise que guarida Da água fria de maio Que estatisticamente Cai nesta cidade Já cinza outono Desde fevereiro O sapato encharcado Pula poças d’água Numa amarelinha coletiva Amaldiçoando sombrinhas Que insistem em caminhar Sob a marquise que guaridaria

Derrete o gelo dos andes

Derrete o gelo dos Andes Num verão duradouro de ano. Décimo portal do inferno de Dante (E ainda dizem que o paraíso fica ao sul do equador) Sarahurco e Sangay vão morrer E eu aqui procurando poesia…

Gazal em louvor de bandeira

Escuta, Darling, à minha maneira, Um gazal para Bandeira: – Poeta do Recife, teu verso Tuas dores são minhas, inteiras. Pois todo o mistério do mundo Cabe na flor de uma roseira. Falaste: “Era tão longe a margem E estava junto à ribanceira.” E as filhas de Pasárgada, Jegueiros e noveneiras Ainda repetem os cantos…

O Tannenbaum

um pinheiro artificial com neve artificial anuncia o Natal; o convite oficial é o primeiro comercial do banco multinacional; novembro, calor bestial guirlanda no portal, hinos de um coral; a música angelical no shopping, no hall denuncia o Natal; a compra é sazonal e o presente é fundamental, diz o reclame no jornal; um pinheiro…

As 3 pontes do Rio Itiberê

São três pontes as do rio Itiberê Uma do lado da outra, Como se houvesse gente para atravessar. Uma é de madeira, Outra é de madeira, E a outra é de madeira. Ligam nada ao campo aberto E são rotas não usadas para lugar nenhum. Foram erguidas – dizem por aí – Como monumentos sarcásticos…

Da barriga do tubarão

Suas palavras duras Ficarão numa cápsula do tempo E voltarão. Mais dia, menos dia! Assim como uma placa de automóvel Engolida por um tubarão Que voltará à tona Depois da fisga e da barriga aberta. Ressuscitadas, mostrarão Ser mais quentes que o ódio que as alimenta E bem mais frias que o desprezo Nutrido e…

Rondel da folha em branco

O papel é a pedra é a tela: A tela espera pelo pincel (E as cores mix da aquarela), A pedra flerta co cinzel. Cada soneto, cada rondel, Cada palavra, cada estela, O papel é a pedra é a tela: A tela espera pelo pincel. Assim o poeta proa sua vela, Faz num dia, a…

Coriscos e andorinhas

Nunca vi um só corisco. Coriscos são mais raros que estrelas cadentes, Não têm hora certa como as Leônidas Nem tempo certo como as andorinhas. São do tipo arredios, desconfiados, Autossuficientes, não precisam de trovão. Têm carreira solo esses coriscos… Pensando bem, tem muita gente corisco por aí. Melhor é ser andorinha. Melhor é poder…

Pressa

Eu que controlo o meu guidon… Los Hermanos Se o tempo passa depres- saudoso não fico, na verda- detesto pensar no passa- doce, salgado, amaro, aze- doído, com nostalgia ou rai- valeu ter vivido e pron- tomo um gole de sali- vamos enfrentar um novo dia. Hora a hora, minuto a minu- toca o ritmo…

Que leve um milhão de anos… Não importa quantos, Esperarei em pé, Sentado, deitado E mesmo mortinho da silva, já virado pó, Serei um Jó: Esperarei pacientemente. Mas, sei, ouvirei um obrigado, Pronunciado francamente, Lá de bem de dentro E com direito a olhos fechados: “Obrigado.” Então me levantarei em câmera lenta E, com um…

Virtual

Girem compassos, Aprumem-se astros! Façam-se sóis e luas: Rosáceos, amarelos, Furta-cores pastéis. Faço meu uni (verso) Com fadas, anjos, reis, Sou um Deus nesta página branca – Portanto eterno – E perfeito no papel.

Sobre o medo do mar (em quatro movimentos)

I – Adagio Os segredos das ondas e das velas, Estes nunca me serão revelados Porque tenho estes pés vermelhos E, entre mim e o mar, há uma cancela. Assim, de cada nau que tomei uma quota Nos meus sonhos de corsário, Guardo a sete chaves, num relicário, O prazer de ler das estrelas as…

O cheiro da madrugada

E quietos, quase mudos Seguimos andando pela noite. Cada um escutando seus próprios passos, Numa solidão solidária, Como deve ser entre parceiros. O pó cinza do asfalto nos sapatos – Uma companhia silente de costume – Já tinha nos abandonado no primeiro orvalho. “Can’t you smell that smell?”, ouvi. “OOOOHOOOH that smell…”, continuei. Só! Nem…

Faxina

Minha cabeça erra por lugares tão improváveis que, de tanto errar, ando meio com a cabeça fraca. Daí decido: melhor é fazer uma faxina nas lembranças. A memória é curta, sei, acaba logo, fenece com as doenças, luta contra o tempo, por tanto tempo, até se esquecer do porquê da luta em si; ando meio…

A rua da minha casa

a rua da minha casa é torta e escura como devem ser as [ruas dos imprudentes, torta e escura como nenhures. desde o adro da igreja no seu ponto mais alto são cerca de mil passos. [até a última das casas gosto de contá-los todos os dias, é quando penso que tenho controle do meu…

Query

e assim, do nada, quebrei o silêncio e tasquei: “então, diz aí, você que é uma pessoa experta, pra onde é que o vento vai soprar esta noite?” não que eu esperasse alguma resposta; na verdade, sabia que era uma pergunta retórica, mas ouvi: “o vento não vai soprar esta noite. esta noite é de…

Wormhole

Falam de múltiplos universos. Dizem, existem outros eus; vários eus paralelos no tempo: um eu que virou poeta, outro que virou cafetão, veja só! Eu que até já morreu, eu cientista, eu valentão. Tem eu para tudo o que não escolhi, outra estrada que não percorri; cada estrada tem várias bifurcações, metade delas não tomada….

Bolero

E se tocasse, agora, uma música lenta Você saberia o ritmo, os passos? Seguiria meus pés, cairia nos meus braços? Sentiria o pulso forte que me desorienta? Talvez você se deixasse ser conduzida Por um bolero de orquestra, uma balada Ou qualquer canção triste, quase parada Que parasse o tempo com você abstraída. E neste…

Vilancete

E ondas seguidas de saudade sempre na tua direção caminharão, caminharão sem nenhuma findidade Cecília Meireles Deixar-te, mesmo um minuto, Torna o tempo imensidade, Traz-me a sensação do luto; E ondas seguidas de saudade Vêm com uma frequência luz Que me toma o corpo e razão; Magnetismo que me conduz Sempre na tua direção. E…

Feito bicho

Eu te olho com olhos de águia e atenção absoluta: tu não me escapas! Eu te sinto com língua de cobra, antenas de morcego e olfato de cão lebrel: tu não me escapas! Como um guepardo, vou te perseguir e com minhas garras de urso, te alcançar e, quando te tiver, te olharei com meus…

Manhã

Um naco de luz, pela fresta da janela, Banha corpos nus.

Cativo

Apenas desata minhas amarras, Porque da mordaça, eu darei conta Abre as trancas, afrouxa tuas garras, Finge que és cega se vês afronta… Mas deixa-me partir, dar-te as costas, Dá-me perdido, caminho errado; Conta-me um prejuízo de aposta, Um sem-alma, um pobre dum coitado. Larga a vigia, não me esperes de volta Ignora saber do…

Queixa

Não deixes Minhas queixas Com pó, na gaveta; Me ajuda, não me iludas, Desata Esse nó cego e molhado. Aproveita Meu reclame E me chama, Não pelo meu nome, Mas pelo diminutivo Ou inventa um alternativo; Teu, exclusivo. Não deixes que minha queixa Mexa Com tua paz; Se puderes, me faz Um agrado qualquer: Finge…

Nuca

Eu preciso de te falar coisas, Obscenas, Sussurradas no teu ouvido, Duvido Que não te arrepiem a alma; Muita calma Nessa hora, pedirás clemência, Paciência, Que meu ímpeto está controlado, Quase amarrado, Até acabar de te falar coisas, As mais doidas. Eu preciso de te morder a nuca, De te ver louca, Tocar o teu…

Brad & Angelina

Você é a minha Angelina Da pele branca armelina E eu o seu Brad Pitt Com sequelas de hepatite. Assim dizem de nós, por certo, Do mais burro ao experto: Como pode um desqualificado Ousar estar do seu lado? Eu, um fulaninho qualquer, Ficando com tão linda mulher? Um mero dum joão-ninguém Com esse puro…

À francesa

Entrei meio de manso, como se eu fosse da casa, e deitei-me na sua cama; alimentei a sua alma, preparei uma sopa rasa, caso quisesse um descanso. Você me acolheu, deu-me abrigo (usei-o como se fosse meu), deitou-se junto a mim, tratou-me como um serafim e disse: “Toma meu corpo, é teu. Sê o piercing…

Felino

Eu, um gato siamês, deitado no seu colo, sentindo suas unhas a me coçar a cabeça, a nuca, as costas, em intervalos perfeitos e hipnóticos. Meus olhos felinos fecham-se a cada carinho, a cada roçada e logo se abrem, sem nada olhar; imóvel, meu pescoço de esfinge espera altivo até que a mão retorne. E…

Pedido

Porque você pediu, amanheceu com sol E, mesmo com o dia claro e branco de inverno, O frio nos condena a continuar abraçados Pelo tempo que nos resta desta fuga ligeira. Meu beijo de boca seca no seu pescoço nefertite É entendido como um last call for alcohol, Mas seus olhos abertos e bêbados de…

Moleque safado

O menino me viu saindo, Botou as mãos na cintura, Um pé ligeiramente à frente do outro e emendou: – Paiêêêê!!! – Onde cê vai? Onde? – Onde cê vai? Onde? Moleque safado! Tão pequeno e me faz uma destas!? – Ah meu filho, seu eu soubesse, a vida seria tão mais fácil.

Seis meses

oi, barrigão! já te queria antes mas, agora, é bem mais que hora: nem tarde, nem cedo que bom! não tarde! que bom que veio assim tão bem comigo: cresça e apareça daqui a um novo inverno.

Bailarina

A pequena bailarina Apertava o passo E a sapatilha larga. Uma rede prendia O coque que apertava Os cabelos com purpurina Da próxima Margot Fonteyn. O palco era pequeno, O colant – rosa – era grande E a ponta, um passo além. Não existiam sonhos, Não existiam medos, Só música e coreografia. E os pais…

Carmesim

Lembro das tuas mãos pequenas Tangendo suavemente as minhas, Nas noites ternas e serenas Nossas almas ficavam juntinhas; Uma felicidade só sentida assim Vezes poucas, vezes nunquinha. Eu já te queria; sei, tu a mim E nesses preguiçosos devaneios, A vida era de uma cor carmesim.

Canção do tempo que parou

Das velas do velório do meu pai Saía um cheiro de morto Que até hoje, tempo vem, tempo vai Ainda consigo senti-las: As velas do velório do meu pai. No dia do velório do meu pai, O ataúde ficou na minha casa; Ouvia-se o Creio-em-Deus-Pai E os murmúrios das carpideiras, No dia do velório do…

Deslembranças

I quando eu era velho eu já não gostava mais de passari- nhos. eu penso que eu achava que eram todos iguais. me- nos o urubu, que esse é doidinho por um defunto. menos o quero-quero, que esse a gente só vê na grama correndo atrás de bicicleta. e menos a águia, que esse a…

São Sebastião

Não tenho medo das minhas cicatrizes! Mostro cada uma delas: Cada uma é uma medalha, Cada uma é uma tatuagem. Todas foram merecidas, Todas foram conquistadas. Minhas cicatrizes são minhas memórias, Até aquela menorzinha, na canela (O que é mais uma flecha para São Sebastião?). Lembro da dor, do mercúrio e do consolo: Ela também…

A penteadeira

No quarto do casal, Tinha uma penteadeira Daquelas que não sei se ainda existem. Espelho em elipse oxidado, Moldura de madeira entalhada E pátina natural do tempo. Uma testemunha e confidente Dos namoros novos, Dos vestidos novos. Era o móvel das mulheres da casa: Em sua frente elas ficavam E se enfeitavam, E sonhavam. Tinha…

Necas de pitibiriba

Sorvete de gianduia na goela Gela até a raiz do cabelo, Pelo de barba encravado E solado de pé-quente. De repente a gianduia gelada É entrada pruma saudade Que invade minha cabeça ligeira, Costumeira de gostos e cheiros. Baleiro, pipoca de catedral, Sal no limão, bule de café quente, Semente de romã, perfume de lírio,…