Ars poetica

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Ars poetica


1 de maio de 2020
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Ars poetica
Publicado originalmente em O Duque.

Na capa do Caderno G, do jornal Gazeta do Povo, uma reportagem sobre o lançamento de dois livros de poemas de um autor curitibano, Fernando Koproski, um jovem veterano poeta, tradutor e letrista. Até aí, tudo bem; é bacana ver um diário com tamanha relevância dar uma força para os autores regionais que estão buscando o seu espaço no mercado e na mente dos leitores. Antes de continuar, devo dizer que não li os livros citados na matéria — mais pela fila de livros que me esperam do que pela parca distribuição de títulos literários em nossa cidade. Porém, o que me chamou a atenção na apresentação do autor pelo colunista foi o seguinte trecho da resenha: “[…] Koproski também procura confrontar academicismos e literatices que mutilam a poesia […] seguindo o procedimento padrão eles tentaram retirar cada um dos seus órgãos, isolaram verso a verso as veias artérias aurículas e ventrículos enfim todo o sistema vascular e circulatório do poema […].” [sic].

Como dizia o comandante da tropa: Alto lá!

Eu li corretamente? “Confrontar academicismos e literatices!” …

Pelo que eu entendi, por “academicismo” o colunista alerta-nos que Koproski se posiciona de tal maneira a de deixar de lado, em sua práxis, o formalismo acadêmico que ele, Koproski, considera ultrapassado/acadêmico na Ars Poetica; já por “literatices”, acredito que se tenha cunhado um neologismo resultante de “literatura” + “chatice”. A paternidade desse neologismo eu não sei se é do colunista ou do autor — tanto faz.

Bom, como já disse anteriormente, não li os livros do Koproski, portanto não tenho como emitir um juízo de valor, o qual, convenhamos, seria muito pessoal, já que não sou nem estou crítico. A matéria informa que são dois livros editados pela 7 Letras: “Retrato do Amor Quando Verão, Outono e Inverno” e “Retrato do Artista Quando Primavera”, que completam a trilogia chamada “Um poeta deve morrer”, juntamente com o livro publicado em 2009, também pela Editora 7 Letras, “Nunca Fomos Tão Felizes Quanto Agora”.

O que me incomoda na reportagem é outra coisa e não tem nada a ver com o autor. O que me incomoda é este confronto ou batalha sem sentido que é travada ao se acusar de formal ou canônico qualquer outro tipo de poesia que não seja a sua própria; outras vezes, muitas vezes, serve como desculpa para a poesia marginal (não me refiro àquela poesia mimeógrafo/marginal dos anos 1970 e 1980, de Chacal, Torquato Neto, Ana Cristina Cesar, Leminski et al.); como desculpa para a poesia sem compromisso, a poesia sem trabalho nem retrabalho; a poesia sem norte e sem sentido, ou cheia das famosas “licenças poéticas” — quando utilizadas como eufemismo para erros crassos.

Além de tudo, faz quase cem anos que Manuel Bandeira publicou “Libertinagem”; ali estava “Poética”, a síntese do novo movimento que eclodira no começo do século passado e a ruptura com a estética que vigia à época e que podemos, sim, vincular a um academicismo que não tinha mais sentido ao limitar a poesia a vínculos pré-determinados. Apesar da ruptura, Bandeira ainda deixa espaço para o lirismo e, assim, para todo o tipo de poesia, desde que livre, inclusive para a formalidade.

Assim, não me parece “literatice”, nem foi isolado o “sistema vascular e circulatório…” do seguinte soneto em decassílabo heroico, com estrofes isométricas e isorrítmicas e rimado, enfim, mais acadêmico, impossível!

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”

Florbela Espanca (In: Livro de Sóror e Saudade, 1930)

Penso que poemas devem ser escritos, evidentemente, com liberdade emocional. Ainda, poemas não são linguagem e SIM o conteúdo da linguagem. Como esse conteúdo pode ser separado da alma do poema? Um poema escrito sem a doçura e a correta formalidade da língua — o que, na verdade, é o que difere o poema da escrita diária comum ou prosa — está fadado ao fracasso. De qualquer maneira, como já mencionei aqui na coluna, o poema bem-escrito não tem que seguir nenhuma receita e o poema só será bom e resistirá ao tempo se, e somente se, vamos dizer assim: o fizer por merecer.

Encerrando, todos sabemos que poetas, assim como os pintores, os escultores, os compositores, nascem e não são feitos nas escolas; alguma coisa que é essencial não pode ser ensinada: algo que é inato, um dom, se preferirem. Porém, há muito que pode ser ensinado e deve ser aprendido.

Agora, você é poeta? Pensa que é poeta? Quer ser poeta? Então, não tem saída! Antes de escrever, leia muito. As principais lições estão nos poemas. Também não adianta ler sem analisar, sem entender a época e a alma do autor. Repito, não existe professor melhor do que um poema bem escrito. Se bem que poesia escrita é um desperdício, poesia tem de ser falada, para não escrever “recitada”. Mas isso é outro assunto para um artigo futuro.

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manoel Bandeira (In: Libertinagem, 1930)

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