ANA C.

[contact-form-7 404 "Not Found"]

ANA C.


1 de maio de 2020
Tags:

ANA C.
Publicado originalmente em O Duque.

Well I’m gonna show you baby that a woman can be tough” (Janis Joplin)

Acordo com essa música da Janis na cabeça. Engulo um café de hotel, morno. Detesto café morno. Sei, sei… já estou atrasado e o trânsito de São Paulo, com certeza, não irá me ajudar a diminuir o atraso. Saio do concierge apertando os passos e enrolando a manga da camisa comprida, murmuro um bom-dia para o porteiro solícito que me abre a porta de saída. A música continua grudada na minha mente feito chiclete em sola de sapato em dia de sol quente. Entro no táxi e já pego da mochila o “Inéditos e Dispersos”, de Ana C. Acho que é uma edição esgotada de 1991, mas é sempre bom rever velhos amigos e fazia tempo que eu não o abria.

Neste momento, dou-me conta que “Piece Of My Heart”, um soul que fizera pouco sucesso com Erma Franklin (irmã mais velha de Aretha Franklin) e que, posteriormente, estourara na Billboard com a voz de Janis Joplin, seria o acompanhamento perfeito para a minha leitura; muito menos pela letra e mais pela melodia amarga e doída da composição. Pena que não a tinha gravada em qualquer das minhas playlists no meu celular. Na verdade, mesmo se a tivesse gravada, não adiantaria de nada: tinha esquecido os meus fones de ouvido em casa.

Taí uma canção doída e certa para ler Ana Cristina Cesar, Ana C., que se atirou do oitavo andar em outubro de 1983. Desistiu de viver, assim como Sylvia Plath, Florbela Espanca, Alejandra Pizarnik e Alfonsina Storni (para quem Mercedes Sosa gravou “Alfonsina y el Mar”, música de Felix Luna e Ariel Ramírez).

Como Plath, Ana C. estudou em Londres; tinha trinta e um anos e já tinha tentado o suicídio anteriormente. Sem contar o fato de que Ana C. traduziu Sylvia com maestria. Mas recuso esse reducionismo comparativo entre essas duas poetas, pelo simples fato de que as duas são únicas nas suas artes e iguais somente em seus tristes fins e, também, em alguns poemas autobiográficos.

Ana C. — era assim mesmo que Ana Cristina assinava suas poesias — talvez seja mais conhecida por pertencer ao grupo de poetas do Movimento Marginal carioca dos anos 1970, a “geração mimeógrafo”. Este grupo de poetas procurava uma nova forma de escrita, contrapondo-se, em algumas vezes, ao concretismo e, em outras, à poesia do estilo de João Cabral de Melo Neto, a poesia racional. Porém, sem entrar em uma análise mais aprofundada do movimento, acho que a inclusão de Ana C. no grupo marginal é mais em função de sua catalogação no livro “26 poetas hoje”, organizado por Heloisa Buarque de Hollanda, de 1975, uma antologia de poemas ditos marginais. Ana C., não tinha uma escrita escrachada, não fazia poemas-minuto, tampouco fez piada com suas poesias. Tinha, em contrapartida, uma sofisticação e um trabalho com a linguagem que a diferenciava daqueles que tomavam o tom marginal. Tinha, sim, em comum com os marginais, a ideia de que “tudo pode ser matéria de poesia”.

Bonita, inteligente e culta, foi uma espécie de musa do movimento e tornou-se, após a sua morte, uma espécie de mito romântico. Publicou três livros independentes: “Cenas de Abril”, de 1979; “Correspondência Completa”, também de 1979; e “Luvas de Pelica”, de 1980. Sua única publicação através de uma editora, a Brasiliense, todavia, foi o livro “A teus pés”, de 1982, onde Ana reuniu os poemas de seus três livros anteriores. O livro que tirei da mochila, “Inéditos e Dispersos”, foi uma publicação póstuma organizada por Armando Freitas Filho, seu amigo e ex-namorado, a quem a família de Ana confiou seus trabalhos e escritos.

Lendo seus poemas, agora, sei que a única preocupação que devo ter é a de tentar não chegar atrasado ao meu compromisso; deixei de procurar as razões de seu suicídio em seus escritos porque, como ela mesma escreveu: “Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico. Ratazanas esses psicólogos da literatura — roem o que encontram com o fio e o ranço de suas analogias baratas.” Tacale pau, motorista!

Nas bodas de prata de lei da sua morte
pensando na Ana

A intimidade da sua morte pública
espetacular, com a cortina aberta
marcou minha vida funcionária.
Nunca pensei que me acontecesse
alguma coisa assim — selvagem —
tão próxima, ou que fosse possível
a alguém, contida, mas em guarda
desatar-se no espelho, de uma vez
e partisse para o ataque a si mesmo
através de dias de decididos suicídios:
primeiro, em narcótico mar, depois
corte! para o abismo da queda livre
traduzindo, à sua maneira, o tumulto
do tempo no qual viveu, de modo
perfeito, fidedigno, sensacional.

Armando Freitas Filho (In: LAR, Companhia das Letras, 2009)

Travelling

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. “É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco.

Ana C. (In: A Teus Pés, Brasiliense, 1982)

Deixe um comentário