A fôrma e o bolo, a forma e o poema

[contact-form-7 404 "Not Found"]

A fôrma e o bolo, a forma e o poema


1 de maio de 2020
Tags:

A fôrma e o bolo, a forma e o poema

Publicada originalmente em O Duque.

 

Na sala de embarque lotada do aeroporto, voo atrasado, a passear por vários sites numa internet lenta, deparei-me com o blog “Amigo de Montaigne”. Particularmente, a seguinte passagem, parafraseada:

Émile Faguet, escritor e filósofo francês do século XIX, publicou o livro “L’Art de Lire” (A Arte de Ler); nele há um capítulo com instruções para o leitor de poesias: “Os poetas propriamente ditos […] devem ser lidos, primeiro, em voz baixa e, em seguida, em voz alta. Primeiro, em voz baixa, para que compreendamos seu pensamento, pois a maioria de nós, por força do hábito, não compreende mais do que a metade do que lê em voz alta. Depois, em voz alta, para que o ouvido se dê conta da cadência e da harmonia, sem que, dessa vez, o espírito deixe escapar o sentido, pois já o terá assimilado antecipadamente.”

Evidentemente, mais do que uma instrução, entendo que Faguet nos deu, aos leitores, uma sugestão de como ler poesia. E somos um número que diminui a cada dia. Porém, não é este o ponto do texto que prendeu a minha atenção e sim a descrição das qualidades de um poema: cadência, harmonia e sentido. Alguns poetas conseguem reunir as três qualidades facilmente em alguns trabalhos. Fernando Pessoa descreveu o processo de criação de “O Guardador de Rebanhos” da seguinte maneira:

“[…] acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título — O Guardador de Rebanhos.”

Porém, outros poetas suam muito mais a camisa e têm muito mais trabalho. Alguns, por estética ou por guia, valem-se de fôrmas para ajudá-los a encontrar o caminho, tal qual a confeiteira as usa para fazer bolos ou tortas. E não me refiro somente à forma — com o “O” aberto — do poema propriamente dita, como os sonetos, dísticos, haikais ou redondilhas, mas também à métrica, à rima e, principalmente, ao ritmo; este, mais raramente, através de adequação às suas unidades, como o anapesto ou o iambo. Alguns outros poetas não se utilizam de nenhuma forma em especial e deixam-se guiar pela liberdade da folha em branco; para estes, bastaria somente utilizar o enjambement em um texto e tudo viraria poema. Em ambos os métodos ou estilos, penso que é um Ledo e Ivo engano!

Pausa: não é intenção deste artigo discutir estética ou escolas de poesia; tampouco me preocupa e, acredito, há poucos que se preocupam com a classificação ou rótulo dado a cada poeta e sua produção.

Um poema pode ser bom independentemente de sua forma ou escola; da mesma maneira, um poema pode ser ruim, seja um soneto ou um verso livre.

De volta ao assunto. No caso da confeiteira, mais importantes do que a fôrma são os ingredientes, e o trabalho, e o enlevo e o zelo com o feitio da iguaria. A farinha, o leite, o açúcar de confeiteiro, os ovos, a noz moscada, o cravo e qualquer outro tempero são nada sem a mistura, sem o descanso da massa e o tempo certo no forno. Assim mesmo é o poema. Assim são as palavras-tempero. As palavras servem e devem ser usadas pelo poeta para dizer alguma coisa, cada uma em seu devido lugar e significado; e deve haver cuidadoso trabalho neste fazer. É por isso que não acredito muito nessa coisa de “poema zen”, o poema que já viria pronto da cabeça do poeta e que, por ser assim, não se deveria, pela qualidade de o poema ser “zen”, mexer em nenhuma palavra. Balela! O segredo, penso eu, está no trabalho e no retrabalho, no reescrever o escrito pronto, no garimpo das palavras e no jogar fora o excesso. E, apesar de todo o esforço dedicado e o suor escorrido, o poeta não terá a garantia de que produziu algo bom, mas terá, quando menos, e se tiver tido o trabalho e o esmero, o deleite de ter tentado.

Deixe um comentário