A caixinha mágica e a tradução de poemas

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A caixinha mágica e a tradução de poemas


1 de maio de 2020

A caixinha mágica e a tradução de poemas
Publicado originalmente em O Duque.

Gosto de traduzir poemas! Alguns do inglês, alguns do espanhol. Traduzir um poema tem o mesmo gosto de resolver o segredo de uma daquelas engenhocas vendidas por ambulantes nas praias do Nordeste, aquelas do tipo caixinha mágica; a gente olha, coça a cabeça, tenta uma vez, tenta uma segunda vez, vira e revira a engenhoca, olha de novo e quebra a cabeça até achar a solução. Assim mesmo é traduzir.

Evidentemente, sei dos riscos de traduzir um poema. Há tantos aspectos que temos que considerar no momento da tradução que, acredito, não há como vencer a batalha; ou seja, levar em conta o conteúdo; o contexto; a forma; a rima; as expressões idiomáticas; o duplo sentido das palavras; o ritmo; a contemporaneidade implícita; e, principalmente, a mensagem que o autor quis transmitir — é fundamental. E todas essas qualidades devem ser pensadas e ponderadas durante a tradução. Por isso, afirmo: traduzir poemas é perder alguma coisa. Sempre! Já que todas essas características, juntas, são impossíveis de se conseguir numa tradução.

Se bem que, algumas vezes, o texto traduzido pode ficar melhor do que o original. Um exemplo bem bacana é o verso “Navigare necesse; vivere non est necesse.”, em latim, frase que Pompeu, general romano, disse aos seus marinheiros, amedrontados, que se recusavam a viajar durante a guerra (segundo Plutarco); acontece que um cara chamado Fernando Pessoa utilizou-a em um poema com a tradução, muito bem sacada, que todos conhecemos — senão pelo poema de Pessoa, pela música “Os Argonautas”, de Caetano Veloso: “Navegar é preciso; viver não é preciso.”. Com o perdão dos puristas e amantes do latim, tenho como certo que em português a frase ficou muito melhor; a tradução de “necesse” para “preciso” deu um sentido extra à frase, assim ela pode ser entendida de duas maneiras: a palavra “preciso” no sentido de precisão (como em “um relógio bom deve ser preciso”) e no sentido de necessidade (como em “preciso de ar”). Daí vem outra compreensão da frase: navegar é uma atividade que tem precisão, afinal temos equipamentos, rotas, mapas, planejamento; já a vida… a vida é como naquele samba: “Deixa a vida me levar, vida leva eu…” Putz, viajei. De novo! Let me tell you something you already know (Rocky Balboa).

Bom, para quem quer se iniciar na arte da tradução, convém pesquisar um pouco e entender a teoria por trás da arte. Existem algumas maneiras de se enfrentar o processo de traduzir. Sugiro a pesquisa e leitura de alguns teóricos: Nabokov, que não acredita em tradução poética; Lefevere, da mesma maneira que Nabokov, entende que nenhuma tradução abrange todos os elementos do poema; Arrojo; Berman; Meschonnic e os brasileiros Haroldo de Campos e José Paulo Paes, o meu preferido. Sugiro a leitura de seu livro: “Tradução, a Ponte Necessária: Aspectos e Problemas da Arte de Traduzir”.

Desta vez ousei traduzir dois poemas de Dylan Thomas. Dylan Thomas morreu novo, bebeu até morrer, aos trinta e nove anos, em 1953. Nasceu no Reino Unido e morreu em Nova York. Aluno medíocre, abandonou os estudos aos dezesseis e tornou-se jornalista. Como a vida de escritor era muito difícil e pouco lucrativa, iniciou, então, uma carreira de locutor na BBC. Curiosamente, daí veio a sua fama, sua voz grave a recitar os seus próprios poemas é de uma beleza incomparável. É imperdível ouvir Dylan recitando “Do Not Go Gentle Into That Good Night”, confira no link . E para ouvir a minha tradução, recitada por mim mesmo, é só esperar que em breve haverá uma seção de áudios aqui no site. Além da monumental diferença dos timbres de voz, você poderá notar as nuances dos ritmos dos poemas — o original e o traduzido —, visto que este fator não foi obedecido rigorosamente quando da tradução. 

O primeiro poema traduzido é “In My Craft or Sullen Art”, de 1946. Neste poema, Dylan nos mostra a sua percepção sobre a arte de escrever, suas motivações e seus anseios. É uma cuidadosa e bem-elaborada visão de como o poeta queria ser lembrado no futuro. Contudo, sabemos que esta visão não era antagônica às suas convicções sobre a sua maneira de viver e entender o seu trabalho ou ofício. Um poema curto e cheio de imagens fortes.

O segundo poema é “Do Not Go Gentle Into That Good Night”, de 1951. Aqui, Dylan escreve um poema num formato fixo chamado Villanelle. Basicamente são cinco tercetos e um quarteto com duas rimas que se repetem ao longo do poema. Um pesadelo para os escritores. Dylan usa e abusa de metáforas, difíceis, em todo o poema para construir a mensagem central, que é a de incentivar o seu pai, muito doente, a lutar contra a morte e, pela maneira com que o poema foi construído, também a de incentivar a todos nós a lutar contra o destino certo. Lírico, porém imperativo e denso, talvez seja a principal obra de sua vida breve. Por falar nisso, dizem, suas últimas palavras foram: “I’ve had 18 straight whiskies… I think that’s the record.”. Precisa tradução?

In My Craft or Sullen Art

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.

Dylan Thomas (In: Deaths and Entrances, 1946)

No meu ofício ou arte sombria

No meu ofício ou arte sombria
Exercido na calada da noite
Quando somente a lua ruge
E os amantes estiram-se na cama
Com todos seus pesares em seus braços,
Eu trabalho sob uma luz que canta
Não por ambição ou pedaço de pão
Ou a ostentação e encantamento
Nos palcos de marfim
Mas pelos simples pagamentos
Que vêm do coração mais secreto.

Não é para o homem orgulhoso distante
Da lua furiosa que eu escrevo
Nestas páginas úmidas
Nem pelo monumental cânone morto
Com seus rouxinóis e salmos
Mas para os amantes, seus braços
Cercam os eternos pesares,
Que fazem nenhum louvor ou pagamento
Nem prestam atenção ao meu ofício ou arte.

Do Not Go Gentle into that Good Night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas (In: Botteghe Oscure, 1951)

Não entre sereno naquela noite boa que cai

Não entre sereno naquela noite boa que cai,
A velhice deve arder e festejar ao fim do dia;
Rebele-se, rebele-se contra a luz que se esvai.

Os sábios sabem que no fim a escuridão não trai,
Eles, suas palavras não laçaram nenhum raio que luzia,
Não entram serenos naquela noite boa que cai.

Os bons, no último aceno, sofrendo pelo brilho que vai
Luzir de suas parcas ações que dançaram na verde baía,
Rebelam-se, rebelam-se contra a luz que se esvai.

Os loucos, após colher e exaltar o sol em seu voo solais,
Aprenderam, tarde, que o magoaram nessa travessia,
Não entram serenos naquela noite boa que cai.

Homens soturnos, à morte, veem através de vendas totais
Olhos cegos podem brilhar como meteoros e ter euforia,
Rebelam-se, rebelam-se contra a luz que se esvai.

E a você, desde lá da angustiante altura, meu pai,
Amaldiçoe, bendiga, a mim com suas lágrimas, eu pediria.
Não entre sereno naquela noite boa que cai.
Rebele-se, rebele-se contra a luz que se esvai.

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